Ideias até ao infinito

Uma manhã pela Dona Ajuda

Agosto 17, 2021

Sim, é verdade que somos livrólicas (nada) anónimas. Sim, é verdade que não perdemos uma oportunidade de adquirir livros a preços super-hiper-mega-acessíveis… no entanto, também deves saber que não resistimos a divulgar uma boa causa. Aliás, um trabalho extraordinário, feito por pessoas extraordinárias… ainda para mais com uma livraria solidária envolvida!

Porém, não penses que apenas vimos aqui falar-te de livros. O espaço que antigamente era o Mercado do Rato ganhou agora uma nova vida (depois de ter sido desativado) com esta grande loja solidária que é a Dona Ajuda. Ali vais encontrar desde livros a brinquedos, passando por roupa em segunda mão e objetos de decoração, têxteis entre outras coisas! Além de que vais perder-te com a forma como o espaço está encantadoramente decorado, com detalhes que apetece trazer para casa!

Visitar a Dona Ajuda, este projeto incrível que te damos hoje a conhecer, na companhia da querida Catarina que é ali voluntária, deixa-nos com vontade de fazer mais… muito mais! Acho que o simples ato de comprar numa loja solidária, sim, ajuda a contribuir para a causa, mas também sabe a pouco.

Quando vês e conheces pessoas como a Catarina, e as outras voluntárias que ali estavam, a despender de TEMPO dos seus dias, sem ganhar “nada” em troca, para ajudar uma causa, neste caso social, só podes sentir admiração por estas pessoas. É que TEMPO aqui é a palavra-chave. Estas voluntárias e voluntários usam TEMPO do seu dia para contribuírem para melhorar o dia, a vida de outras pessoas. E só consigo vê-los como uma espécie de anjos da guarda, que andam neste mundo e têm tanto para nos ensinar. Sem me alongar mais, vem daí descobrir o projeto solidário Dona Ajuda pelos olhos e pelo coração de um anjo da guarda chamado a Catarina dos Livros! 😊

1 – Faz de conta que as miúdas ainda não conhecem a Dona Ajuda. O que é e como surgiu?

Embora não seja a pessoa ideal para explicar o contexto do surgimento da Dona Ajuda, porque só cheguei há pouco mais de um ano, tenho tido oportunidade de ouvir a presidente, Cristina Veloso, falar um pouco da história desta associação, pelo que posso explicar de forma resumida. Dona Ajuda é o nome que se dá à loja solidária que ocupou o espaço do Mercado do Rato, há cerca de cinco anos, à época desativado. Esta loja solidária é o principal projeto de uma associação sem fins lucrativos, denominada Boa Vizinhança, que surgiu da iniciativa de um conjunto de vizinhos da freguesia de Santo António, em Lisboa, e que tinha como principais objetivos apoiar causas sociais mais delicadas, mas também proporcionar aos “fregueses” da zona algumas atividades de caráter mais lúdico e cultural.

Passados cerca de cinco anos, a Dona Ajuda serve assim todo o tipo de público, que procura produtos variados, a maior parte manuseados, desde roupas a brinquedos, passando por livros, decoração, etc. A receita gerada pelas vendas reverte, de forma quase integral, para o apoio a beneficiários referenciados pela Santa Casa da Misericórdia ou por muitas outras instituições. A loja está localizada no antigo Mercado do Rato, onde antes se vendiam o peixe e as hortaliças, na Rua Alexandre Herculano, junto ao concessionário da Opel, bem pertinho do Largo do Rato. É preciso subir uma rampa, mas vale muito a pena o esforço!

2 – Fala-nos um pouco das vossas áreas de atuação.

Neste momento, a Dona Ajuda acrescentou ao seu espaço uma área que ficou batizada como Praça, ou seja, trata-se de uma segunda nave onde, até abril deste ano, armazenávamos as doações e realizávamos as triagens do que podia ser vendido ou reencaminhado para outras instituições ou beneficiários. A Praça veio complementar o trabalho realizado pela equipa da Dona Ajuda, abrindo mais espaços comerciais, mas apostando fortemente nas componentes cultural e ambiental. Hoje, já é comum ir à Dona Ajuda para comprar livros ou roupa e, uma hora depois, estar sentado confortavelmente num dos sofás da Praça a assistir a um concerto de música. Ou seja, continuamos a ajudar quem precisa, a receber os beneficiários dois dias por semana, para que possam escolher os bens de que precisam, e a gerar receita para apoiar instituições em necessidade, mas acrescentámos as valias artística, cultural e ambiental, com projetos que interligam a Arte e o Ambiente, como por exemplo a recolha de tampinhas de plástico, rolhas de cortiça, reciclagem de papel com o objetivo de apoiar o Banco Alimentar, entre outras iniciativas que vão decorrendo.

3 – Há alguma campanha a decorrer neste momento? Se sim, qual?

Durante o verão, a atividade decresce sempre um pouco mais na Dona Ajuda, mas as campanhas são recorrentes. Já tivemos campanhas para apoiar pessoas sem-abrigo, bairros carenciados, crianças em África, entre muitas outras. Esperamos poder vir a fazer uma campanha para apoiar abrigos de animais, nos próximos tempos.

4 – E atividades programadas, agora que já se desconfina aos poucos, já têm algum evento previsto? (workshops, visitas, exposições, etc)

No que me diz respeito diretamente, que trabalho na área dos livros, iniciámos em maio os nossos sábados literários mensais, aos quais chamámos de Lorem Ipsum, nos quais convidamos escritores a virem apresentar os seus livros. Programamos também para esse sábado mensal uma atividade de formação, embora de caráter lúdico, relacionada com Escrita ou Transformação de Livros, bem como uma feira do livro de temática mais específica. O próximo Lorem Ipsum será em setembro e terá um tema dedicado à literatura infantojuvenil: “Vamos Reconstruir o Mundo?” Nesse dia, teremos dois escritores convidados, o Fábio Monteiro e a Inês Barata Raposo, uma oficina de transformação – ou reconstrução – de livros (a partir de exemplares antigos e estragados) e ainda uma Hora do Conto para miúdos e graúdos. Temos muitas ideias para a rentrée, mas estão ainda no segredo dos deuses! Aconselho a seguirem quer a Dona Ajuda quer a Praça nas redes sociais, porque é por lá que vão sendo divulgadas as atividades.

5 – Catarina, queres contar-nos como conheceste a Dona Ajuda?

Conheci a Dona Ajuda porque sou livrólica assumida [junta-te a nós, Catarina] e frequentadora de livrarias, sobretudo de livros manuseados, e, numa pesquisa mais aprofundada na Internet encontrei a referência à venda de livros na Dona Ajuda. Como sou de Lisboa e passava muitas vezes pelo Rato, sabia que existia qualquer coisa no topo da rampa, mas nunca me tinha dado ao trabalho de averiguar. E um dia, já depois do primeiro confinamento, resolvi subir a rampa e investigar. A Dona Ajuda tinha reaberto precisamente nesse dia, depois de um confinamento de dois meses e meio. Quando descobri a livraria fiquei de queixo caído. Como era possível eu ser uma perita em espaços análogos e não conhecer aquele pedaço de paraíso? Logo nesse dia trouxe para casa 10 livros por 30 euros e fiquei apaixonada. Perguntei se precisavam de voluntários para a secção dos livros e três semanas depois tornei-me voluntária.

6 – O que significa para ti ser voluntária?

Neste caso particular, ser voluntária na secção dos livros é conjugar duas componentes fundamentais: estar rodeada de livros, triá-los, arrumá-los, vendê-los, atender o público, dando sugestões, etc; e poder ajudar diretamente causas tão nobres. Por lá, já sou conhecida como a Catarina dos Livros.

7 – O teu trabalho voluntário está ligado aos livros, e à vossa livraria solidária (que, confessamos, é o nosso espaço favorito de toda a loja, ou não tivéssemos nós um clube de leitura!). Explica-nos um pouco o ciclo de vida dos livros na Dona Ajuda.

Todos os livros são doados. A maioria dos que recebemos são livros muito antigos, embora também recebamos livros quase novos ou em ótimo estado de conservação. A triagem é feita por mim ou por outros voluntários da equipa, de modo a dividirmos os livros por áreas. Como, neste momento, ampliámos a livraria e temos mais espaços para os livros na Praça, a gestão é um pouco mais trabalhosa, mas lá vai funcionando, também dependendo da disponibilidade dos voluntários. Os livros são separados de acordo com as áreas Infantojuvenil, Ficção, Não Ficção e Arte e têm espaços próprios dentro da Dona Ajuda/Praça. Também fazemos doações de livros para escolas, mediante requisição prévia, ou para outras lojas solidárias.

Depois, existe ainda a página de Facebook Livros Dona Ajuda, gerida por mim, e o grupo de Livros Infantojuvenis Dona Ajuda, também no Facebook, gerida pela minha colega Paula Nunes, onde vendemos sobretudo para o resto do país e para quem não pode vir à loja, em Lisboa. Durante o segundo confinamento, as vendas de livros online foram quase a única receita da Dona Ajuda. Também realizamos leilões solidários, com frequência mensal ou bimensal, onde vendemos livros por valores um pouco acima do que costumamos vender na loja. Até hoje, realizámos sete leilões e as receitas foram sempre revertidas na íntegra para as instituições apadrinhadas. Também temos um Clube de Leitura online, surgido em janeiro de 2021, mas já não faz parte do ciclo dos livros na Dona Ajuda

8 – Se as miúdas quiserem fazer uma doação para a Dona Ajuda como podem proceder? Quais as formas de ajudar?

Infelizmente, não temos meios para ir levantar as doações a casa das pessoas, a não ser que a quantidade e qualidade dos bens valha o investimento de contratar um transporte. Por isso, geralmente, para entrega de doações mais simples (roupas, sapatos, objetos utilitários, livros, quadros, brinquedos e jogos) é só aparecer de segunda a sexta-feira, entre as 11h e as 18h, e fazer a entrega diretamente. Para doações mais específicas e volumosas é sempre melhor contactar a direção da Boa Vizinhança ou ligar para a Dona Ajuda. Já agora, é sempre bom reforçar que não pretendemos “lixo nem luxo”, ou seja, é uma forma de alertarmos os doadores a terem um pouco de cuidado com as condições dos materiais que nos doam, porque muitas vezes surgem itens estragados, rotos, sujos, e que não servem nem para doar nem para vender. No caso dos livros, também acontece chegarem sacos com livros a desfazerem-se, roídos dos ratos, cheios de humidade e absolutamente irrecuperáveis. Infelizmente, somos obrigados a reciclar muitos livros.

9 – Por fim, diz-nos, para quem possa estar interessado em oferecer-se para fazer voluntariado na Dona Ajuda, o que é que precisa saber?

Consultar o site da Boa Vizinhança ou dirigir-se diretamente à Dona Ajuda e demonstrar interesse em ser voluntário. Os horários são bastante flexíveis, sendo que precisamos sempre de mais voluntários às sextas e sábados (embora, em agosto, a Dona Ajuda esteja encerrada ao sábado).

Despertámos em ti a curiosidade para ires conhecer a Dona Ajuda? Esperamos mesmo que sim, porque temos a certeza de que vais adorar e que vais ser recebida de… “asas” abertas, já que por ali vais encontrar-te com verdadeiros anjos da guarda!

 

Susana Figueira

 

Na Dona Ajuda, encontras imensas possibilidades de prendas para os mais novos

Alguém matou saudades do telefone de disco 😊

Eu queria trazer esta, mas não está à venda

Também vais adorar os slogans

Do outro lado do espelho?!

Miúdas felizes

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