Clube de Leitura - Livros à Sexta

Livros, madrinhas, aerogramas e afilhados

Maio 20, 2021
Livros à Sexta

Não há duas sem três, mas à quarta foi de vez.
Já ninguém aguenta o Zoom na caneca (apeteceu-me fazer este trocadilho com a música da Tonicha, nem sei bem porquê)! As miúdas estão muito cansadas de ver as queridas clubeiras dentro de quadrados pouco iluminados, com falhas de som e congelamentos gratuitos. Por isso, este encontro com as Madrinhas de Guerra tinha de ser presencial. A Marta Martins Silva, a nossa querida convidada, teve muita paciência para o ora marca, ora desmarca esquizofrénico que vinha a acontecer desde janeiro. E assim o desconfinamento aconteceu no lounge do Quiosque Rocha do Inferno, com a presença do sol, dos pardais e das gaivotas! Não apanhámos a bebedeira prometida, essa fica agendada para o primeiro encontro de Livros à Sexta sem máscaras, com abraços e beijos nas bochechas.

Eram elas, de quem tão pouco se fala, a ligação deles à vida.

Antes de contar-te como foi este encontro com a autora do livro que trouxe para “as luzes da ribalta” as quase esquecidas madrinhas de guerra, cujas missivas de esperança criavam atalhos para os que estavam longe de casa, quero partilhar contigo como conheci a Marta Martins Silva. Era março, decorria o ano 2020. Eu tinha chegado de uma viagem ao Porto quando a bomba estoirou. Ainda assim, pus os pés a caminho e lá fui eu para o encontro de escrita do “Primeiro Capítulo”, dinamizado pela Beatriz Canas Mendes e pela Elisa Baltazar. No dia em que foi diagnosticado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, o meu caminho cruzou-se com o da Marta e ainda lhe dei uns valentes abraços. Ela era a convidada do encontro. Acho que gostámos logo uma da outra e nunca mais perdemos o contacto. Trocámos postais e fomos espreitando os Instagrams uma da outra. O nosso reencontro deu-se este sábado graças às suas madrinhas!

Esta foi, sem dúvida, uma tarde muito especial. A malta de Livros à Sexta reuniu-se num sábado, provou as iguarias do Quiosque Rocha do Inferno, apanhou uma boa dose vitamina D, colocou a conversa em dia e partilhou muitas histórias com a Marta. Neste grupo de amantes de livros, descobrimos que temos uma miúda resultado de uma bonita história de amor entre madrinha de guerra e afilhado. Levou a sua caixinha de memórias, que é como quem diz, um álbum cheio de fotografias e um jornal da época da guerra do Ultramar, com uma fotografia do seu pai na primeira página. Mas descobrimos, também, que entre as nossas livrólicas há uma madrinha de guerra! Como deves calcular, conversa foi coisa que não faltou. A Marta partilhou connosco como surgiu a ideia para este livro (verdadeiro registo de memórias), as emoções que viveu em cada conversa que teve com madrinhas e afilhados, e reforçou o papel importante destas mulheres naquela época de incertezas e angústias.

Basicamente, escrevia-se para não morrer.

O nosso amado Beto Kavalcante, para além de ilustre representante da classe masculina, foi também o nosso repórter fotográfico que registou este momento épico (por isso não aparece nas fotos… que falha das miúdas). O encontro terminou com a Marta a dar autógrafos e a distribuir simpatia pelos presentes. Cheguei a casa cansada (uma pessoa já não está habituada a tanto rebuliço), mas com a alma leve e acho que posso dizer o mesmo da Susana. Acredito que tenha caído para o lado de cansaço, mas com um grande sorriso no rosto.

Tivesse eu os meus 16/17 anos no início dos anos 70 e era bem capaz de ter tido para cima de 10 afilhados. Sinto, nas minhas veias, esta efervescência de escrever cartas e de levar alegria a quem as recebe.

Deveres de uma madrinha de guerra:
“… escrever pelo menos uma vez por semana ao afilhado; procurar informar-se das suas carências e para estas procurar soluções; entrar em contacto com a família do soldado, esforçando-se por auxiliá-la no que lhe fosse possível.”

Rosarinho

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