Ideias à solta

Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia

Abril 8, 2021

Se eu fechar os olhos, ainda te consigo ver a dormir a meu lado. Os carinhos que te fiz no rosto, enquanto dormias, tu não sabes… Da mesma forma que as crias das aves não sabem o trabalho que os seus progenitores têm para construir o ninho delas… Também eu te levei amor ao bico, para te alimentar, para que cresças e possas voar mais tarde. Mas tu blindaste o coração de uma forma tão firme, meu amor…

Talvez quem tenha poesia nas mãos e amor no olhar possa desbloquear toda a certeza negada e essas asas encolhidas.
Tu, com vidros duplos e completa insonorização da alma. E eu, do lado de fora de ti, meto o piano da ponta dos meus dedos a tocar. Se tentares, toda tu ouvirás em ti a vibração das cordas que choram.

Fui eu quem as entristeceu, por lhes contar que não me querias dentro de ti por completo por mais que uns minutos. Eu que tinha a eternidade para te abraçar.

E tu com braços datados de adeus…

Se embarcasses em mim, verias que haveria sempre um cais livre para atracar, uma prosa ondulando ao longe no horizonte, um gemido de prazer, um sussurro ao ouvido anunciando que tudo ficaria bem e o meu regresso a ti, sempre no próprio dia, um vento a favor seguro nas tuas ancas e de amor em popa. Navegarias segura…
Trancada no porão estás… Aí onde eu tenho de enfrentar o teu medo do escuro e do pó solitário. A tua batalha seria sempre a minha.

Tens os olhos embaciados de dor, por isso não vês que sou teu, que só posso ser teu, que mais ninguém entrará à primeira no circuito fechado do teu ser… Eu entrei, ainda que nem uma volta me deixes realizar por inteiro. Eu sou carro de alta cilindrada, meu motor é inquebrável, meu combustível é a paixão que inventei para te entregar à porta, puxada a travão de mão.

Deixa-me ficar mais umas horas! Essa névoa na tua face, empurrá-la-ei até à hora de almoço. Essa melancolia que te perpassa, faz-me murchar as rosas que ainda prendo no peito.

Meu amor, antes de me magoares já me dói, sabes?

Eu tinha tanto desejo com que te vestir, quando despisses as constelações que te cobrem o corpo… Este fogo solto, vindo de cometas de novas auroras, seria para ti… E estaria pronto para deixar cair as letras caducas do teu abecedário no chão, no mesmo chão em que te possuiria e onde renascerias sem te aperceberes da língua nova que falarias na perfeição, a única linguagem que sei falar é o amor arcaico, o único sotaque que tenho é a alta voltagem.

Regressa comigo ao futuro que já passou, meu amor…

E lá, estarás disposta a me acolheres em ti, como toda a terra fértil está disposta a acolher no seu seio a semente pronta de agora…

Agora lê-me por favor! E depois… Bem, depois poderás então descartar o meu amor, como quem retira um cisco do olho, ainda que eu seja flecha apontada à alma… Se fores capaz, larga agora a minha mão, enquanto o piano ainda não deixou de me cantar…

Abril 2021
Filipe Correia

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