Ideias para a agenda

O último passeio foi à adega

Fevereiro 4, 2021
o último passeio foi à adega

Recordo-me tão bem como se fosse hoje, mas foi há 3 semanas. O último passeio antes de me confinar foi à Casa Museu José Maria da Fonseca, em Azeitão. Nada como beber um bom vinho para esquecer, por momentos, esta vidinha caseira que agora levamos. Lá fora, as vinhas crescem felizes e quando voltarmos a erguer os copos, sem medos, já as uvas foram colhidas. Acredito que, em finais de setembro, início de outubro, iremos respirar melhor e por essa altura prometo que apanho uma piela de felicidade. Mas até lá vem comigo numa visita virtual a esta casa de família.

O passeio a Azeitão foi no âmbito da minha vida profissional. Na verdade, foi uma visita técnica, mas quando o trabalho se faz de gente que amamos e de temas que nos preenchem, a vida corre tal como o vinho corre da garrafa para o copo. Gostei tanto do que vi, do que descobri e do que bebi, que era impensável não documentar toda a experiência, neste espaço que privilegia o bom da vida.  

Cedo nos fizemos à estrada e a conversa foi animada. Ao chegarmos a terras de Azeitão, a primeira paragem foi na esplanada da Casa Negrito. Nuca ouviste dizer ‘but first coffee‘? Eu diria, primeiro café e uma bela empada! Do outro lado da estrada, já José Maria da Fonseca nos espreitava. E nós piscámos-lhe o olho.

A visita foi bem conduzida por quem conhece a essência desta ‘família de vinhos’ e estes ‘vinhos de família’. A Casa Museu é muito bonita, mas atrevo-me a dizer que a história de 200 que a acompanha ganha em beleza e prémios! A empresa familiar, fundada em 1834, pelo visionário José Maria da Fonseca, gravou na linha do tempo a criação de vinhos que hoje são uma referência no nosso país e além-fronteiras.

Sabias que o Periquita foi o primeiro vinho engarrafado do nosso país? Pois é, na mesa dos portugueses, desde 1850. Começou cedo a contabilizar prémios. A colheita de 1885 foi galardoada com Medalhas de Ouro na exposição de vinhos portugueses em Berlim e na exposição universal de Barcelona. Digamos que é a estrela da companhia. Um copo de Periquita Clássico vinha mesmo a calhar com a escrita deste post

Depois de uma viagem pelo tempo, visitámos o repouso dos Torna Viagem. Seguimos pelo jardim e fomos à descoberta do tesouro. Espera. Sabes o que é um Torna Viagem? É um vinho que embarca numa viagem à volta do mundo. Aventureiro! A passagem pela linha do Equador, as variações de temperatura, associadas ao balanço e à salinidade do mar contribuem para o enriquecimento do vinho. A última viagem do Moscatel foi atribulada por causa daquele cujo o nome toda a gente fala e que nos mantém em casa! Foram só 4 meses no mar, mas passou duas vezes pela linha do Equador, o suficiente para se registar uma alteração. O vinho estava bastante melhor do que antes de se fazer ao oceano.

Vamos lá ao tal do tesouro. Entre cânticos gregorianos, teias de aranha centenárias e pipas de perder de vista, existe uma sala que nos intriga. Lá dentro, num misto de lusco-fusco e mistério, repousam os mais antigos Moscatéis de Setúbal. Este vinho generoso com Denominação de Origem Controlada (D.O.C.), reconhecida desde 1907, é produzido pela José Maria da Fonseca desde 1834. Adoraria ter passado para o lado de lá, para o lado da história. Imaginei-me a degustar a colheita de 1970! Um bom ano. Mas fiquei-me pela imaginação. A realidade esperava-me na loja de vinhos. Foi lá que degustámos um Periquita Reserva de 2018 e um Moscatel Roxo de Setúbal, 5 anos. 

Foi bom lembrar este passeio e partilhá-lo contigo. Anseio por mais dias assim. Eles virão, estou certa. Brindemos a isso!

Rosarinho

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