Ideias para a agenda

Uma miúda n’“Um Castelo em Ipanema”

Janeiro 19, 2021

Em criança também eu sonhava com castelos. Quem nunca?! Já se for para falar de príncipes… bem, desde cedo percebi que não passam de fantasia. Agora, nunca imaginei que aos 45 anos um outro castelo me fizesse voltar a sonhar! Não propriamente com contos de encantar, mas com as várias vidas que podemos viver nas páginas dos livros!

Ler “Um Castelo em Ipanema”, de Martha Batalha, é muito mais do que acompanhar uma saga familiar – dos Jansson -, ao mesmo tempo que vamos percorrendo parte da História do próprio Brasil.

Tudo começa quando Johan Edward Jansson aceita o cargo de cônsul no Brasil e para lá se muda com a sua “peculiar” esposa, Brigitta, construindo o seu castelo, o seu “novo mundo dentro do novo mundo”! Calma, não vou ser spoiler e contar-te a história. Prefiro antes dizer-te como me transformei numa verdadeira “garota de Ipanema” através das páginas deste livro…

Vivi algumas páginas (poucas) em Estocolmo, o suficiente para “ouvir as vozes” que acompanhavam Brigitta desde criança e que foram a razão que levou Johan a aceitar o cargo de cônsul no Brasil, na esperança de que a sua esposa melhorasse. Vi como um mergulho numa praia deserta pode dar origem a um castelo. Subi ao “palco” improvisado da Laura Alvim e fui uma heroína de “xale vermelho com franjas douradas” aos ombros. Andei na balada com Nils (Nilson Jansson), mas também dei por mim a recortar “revistas com bonecas cercadas de roupa” ao lado de Guiomar

Fiz “xixi num balde de gelo” no bar do bairro com a Maria Lúcia e vivi o “casamento perfeito” de Estela e Tavinho (Otávio Jansson). (faço aqui este parêntesis apenas para te dizer que boa parte da história acaba por centrar-se nestas personagens) Por isso, é fácil perceber que foi com a Estela também que senti o “cheiro de naftalina, do hálito de queijo com tabaco” fechada naquele armário na festa de Réveillon, para mais tarde petrificar com a revelação de Tavinho. “Aguentei” os almoços de sábado com os sogros, D. Guiomar e seu Nilson (o maior boémio de Ipanema à época), e fui deseperadamente consultar o pai Laudelino de Oxalá na esperança de recuperar a relação com Tavinho, embora mais tarde tenha cedido à sua proposta de experimentar “este negócio de amor livre” no casamento.

Sem saber bem como, este “amor livre” levou-me com Estela à porta do apartamento térreo de Beto… vezes sem conta, para que pudesse renascer enquanto mulher. Porém, também me fez “desaparecer” com o seu jovem amante e passar com ele os dias de sofrimento, dor e angústia na sala de interrogatório do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o equivalente à PIDE na ditadura), para mais tarde viver um inesperado reencontro no Jardim Botânico…

Este é o primeiro livro que li da Martha Batalha – sim, devo ser das poucas pessoas que ainda não leu “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, cujas críticas elevaram as expectativas para este seu segundo romance – e, pelo que tenho ouvido, é diferente do primeiro. Porém, posso dizer-te que gostei muito de me deixar levar nas páginas deste “Um Castelo em Ipanema”. Uma leitura (apesar de ‘interrompida’ pela do encontro de Natal do Clube de Leitura – Livros à Sexta) bastante fluida e agradável, que nos envolve na sua história, séria nos momentos certos, mas, ao mesmo tempo, com situações hilariantes de época.

Resta-me agradecer à Porto Editora por me ter permitido “nadar” pelas águas límpidas da praia de Ipanema!

Susana Figueira

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