Ideias à solta

O Mundo dos Livros, by Anna

Novembro 19, 2020
Vasto mar de sargaços

Vasto Mar de Sargaços
Jean Rhys

São poucos os romances sobre os quais ouvi ou li tantos elogios. No entanto, o trabalho desta autora nascida em Dominica, uma ilha nas Caraíbas, quando ainda era uma colónia britânica, parece que foi merecedor de todas as palavras que se escreveram sobre ele. Vasto Mar de Sargaços é considerado um dos primeiros ‘romances do Caribe’. O Caribe, as suas ilhas e a sua população são, em grande medida, o núcleo, a espinha dorsal sobre a qual se baseia esta grande obra de Jean Rhys.

Romance que nasceu, curiosamente, como uma ‘prequela’, spinoff , de um muito anterior, e que em princípio nunca relacionaríamos com o calor e a sensualidade tropical. Estou a falar-te do célebre “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë, em que aparece uma personagem, podemos quase dizer, fantasmagórica: a primeira esposa do senhor Rochester, Bertha. Na obra de Rhys, temos Antoinette, a quem aprisionaram devido à sua loucura.

Conhecido é o desafio a que Rhys se propôs: pegar numa das personagens de Jane Eyre e dar-lhe uma biografia, conteúdo que não nos foi revelado por Charlotte Brontë. Especificamente, Antoinette Cosway (Bertha Mason em “Jane Eyre”), a misteriosa primeira esposa que Rochester manteve trancada até ao dia em que ela ateou o incêndio no qual morreu. Jean Rhys esboçou como teria sido a vida anterior dessa mulher, filha de um fazendeiro na Jamaica e uma bela herdeira da Martinica, antes e durante o seu casamento com Rochester, e o que causou o seu estado de insanidade.

Antoinette Cosway, uma crioula nascida na Jamaica no seio de uma família esclavagista, mas de poucos recursos (a escravatura acabava de ser abolida), é uma menina de extrema sensibilidade, muito frágil e com uma grande imaginação. Com uma mãe viúva e deprimida que mal lhe dá atenção, e um irmão constantemente doente, vive isolada, quase num estado semisselvagem, no seu próprio universo, sufocante e terrível. Christophine, a empregada doméstica, é a única que lhe dá atenção e cuida dela.

Jean Rhys sabia sobre o que estava a escrever. A autora nascida, tal como a sua personagem principal, nas Antilhas, filha de um médico galês e uma crioula de origem escocesa, aos 16 anos, mudou-se para Inglaterra. Muitos elementos autobiográficos estão na base do seu livro. Na verdade, volúpia, superstição e a espiritualidade do Caribe misturam-se à imperturbabilidade e fleuma britânica, elementos com que Rhys brinca, dando ao livro uma forma britânica e um fundo caribenho.

Antoinette busca consolo no seu passado, nessa natureza mágica e sufocante das Caraíbas, nos sentimentos e comportamentos dos negros livres, na memória da sua mãe, nas vívidas superstições de um tempo e lugar… E o resultado de mergulhar nesse seu passado não podia ser mais devastador.

“Vasto Mar dos Sargaços” é um livro dividido em três partes. A primeira é narrada por Antoinette, a segunda por Rochester, para, finalmente, voltarmos voz de Antoinette (rebatizada de Bertha) e já fechada em Thornfield Hall.

O que Rhys propõe aos leitores é que conheçamos a desintegração psicológica e a loucura de Antoinette, a mulher do sótão que conhecemos de Jane Eyre. Entender como uma mulher do século XIX pós-colonial vive a repressão social e, principalmente, a repressão e manipulação egoísta de Rochester, um marido que não a ama, mas que se casa com ela pelo seu dote, num curioso paralelismo da relação do império Britânico com as suas colónias na época vitoriana.

A paisagem, a cultura, o modo de vida no Caribe oprimem Rochester, libertam o pior dele, o seu lado mais sombrio e cruel. Mas quem é realmente o Rochester real? É difícil sabermos. Creio que nesta história o foco não está nos bons ou nos maus, mas sim na sobrevivência perante circunstâncias complicadas e horríveis.
Em suma, “Vasto Mar de Sargaços” é um romance intenso, comovedor e inquietante, uma prequela digníssima do clássico de Jane Eyre e que aconselho sinceramente a leres.

Boa leitura!
Anna

    Escreve aqui o teu comentário

    Parcerias