Clube de Leitura - Livros à Sexta

“Estereótipas”, uma leitura muito divertida

Outubro 27, 2020

Já há algum tempo que lhe piscava o olho, sempre que passava perto da estante cá de casa. Olhava para ele, ele olhava para mim e eu pensava: “Hmm… quando é que um tema do Clube de Leitura me vai permitir pegar neste livro?” E a oportunidade não surgia…

… até que, por altura das “férias” de Livros à Sexta, que é sempre um período mais prolongado sem encontros, decidi agarrar-me a “Estereótipas”, da jornalista e cronista espanhola Luz Sánchez-Mellado. E em boa hora o fiz!

Vou dizer-te, há muito tempo que não me divertia tanto com uma leitura! É que começa logo na introdução, onde a autora revela o episódio em que “por vezes, poucas, o que começa como um castanho-escuro quase preto, acaba como um caramelo rosa-choque”! Ou seja, como de um estado de exaustão em que já só pensava em férias é chamada ao gabinete do chefe e acaba a ter de escrever uma coluna fixa sobre “cinquenta e uma vidas de antidivas”! O mesmo é dizer, sobre todas nós! Ou talvez não.

Na contracapa, deparas-te logo com isto: “Engenhosas, contundentes, sem misericórdia, brutalmente divertidas, as Estereótipas provocam gargalhadas ao contar-nos as suas vidas. Riem-se de toda a gente, mas riem-se sobretudo de si próprias.

E deu-me uma enorme vontade de te falar um pouco deste livro, que, para muitos, é visto como literatura leve e cor-de-rosa. Mas, e não é tão bom, às vezes, podermos encher a nossa vida de tons rosa?! Numa época em que tudo é motivo para se discordar e se espalhar azedume e amargura por esse mundo fora, o mesmo é dizer pintar a vida de cinzento, é muito bom podermos pegar num livro que nos faz rir de nós mesmas e traz cor às nossas vidas.

Sim, porque tal como eu me revejo em algumas destas “Estereótipas”, mesmo apenas em alguns episódios da minha vida, acredito que também tu vais encontrar neste livro uma ou outra situações em que já viveste, ou viste, o estereótipo destas “Estereótipas”.

Para te aguçar a curiosidade e te deixar mortinha para leres este livro (espero!), deixo-te aqui uma pequena amostra do que podes ler em cada capítulo, cujos títulos só por si… Tens então o capítulo dedicado às Miss Próteses, Predadoras e Presas, Lady Ganga, Conciliadora, Velha Patética, Lady Piscina, Irmã Loba e Incontinente Verbal. Optei por selecionar um excerto de alguns textos de um ou outro capítulo, com o qual ou me identifiquei ou me fartei de rir, de tão humoristicamente bem escritos que estão. Ora vê só:

Miss Próteses

Curta de vista

«Não sou antipática, sou míope. E convencida, sim, algum problema? Por isso, se me cruzar contigo na rua e não te cumprimentar não é porque não te fale, é porque não te vejo. Levo os óculos pendurados ao pescoço para qualquer eventualidade, mas antes morrer a pô-los na cara. (…) mas isso da acuidade visual é como o sexo: está sobrevalorizada. Quanto menos tens, menos precisas. Quando te habituas a viver num mundo esborratado vais encontrando encanto no assunto. Ao longe, vês vultos, silhuetas sensuais, figuras sinuosas. De perto, rostos puros e uniformes; o mais importante, o teu, que falta te faz. Todos ficam mais jovens e mais bonitos. É como levar um editor de Photoshop incrustado na retina. Mas há que estar atenta.»”

Tão eu! Só ainda não tinha visto as coisas por este prisma, de ser como “um editor de Photoshop incrustado na retina”! Hahaha

“Predadoras e Presas

«Pretty woman»

«Eu lá vou, apertadita, pela vida, mas isto está que não há pretendentes. Já não há homens livres, dizem por aí. Deve ser por causa dos amantes. A verdade é que também há por aí muita esquisitice. Não podemos levantar obstáculos a tudo. Se insistes em não gostar de chineses, por exemplo, já estás a espantar setecentos milhões de candidatos e o tempo não está para fazer má cara a nada. Sejam morenos. Ou loiros. Velhos. Ou novos. As minhas amigas separadas chamam-me ADSL, porque tenho uma banda muito larga, porém pior estão elas. Vivem permanentemente apagadas porque estão sem qualquer cobertura.»”

A verdade, verdadinha, é que isto está mesmo pela hora da morte! Ainda assim, reservo-me alguma esquisitice! :-p

“Lady Ganga

Lady Ganga

«Ontem atirei-me aos saldos dos saldos de verão para ver se já estava tudo mais barato. Está bem, está. Já não havia nada. Toneladas de trapos amontoados a um canto, como se tivessem sido arrastados por um maremoto. (…) E, depois, vês expostos, como peças de museu, os artigos que não estão em saldo. Chamam-lhe Nova Coleção. Têm cá uma lata. (…) Têm-nos dominadas. Podem estar quarenta e três graus à sombra, que regulam o ar condicionado para os quinze graus dentro da loja, condicionando a valer o teu comportamento. Mal passas pela porta e te cai o sopro gelado em cima, fogem-te os olhos para os agasalhos do Avanço de Temporada Outono-Inverno. Experimentas, aqueces e levas, antes que esgotem. Depois penduras no armário, esqueces-te de que o tens e, quando chega o frio a sério, já não gostas daquilo: já está passado e tu tens de te aguentar.»”

Tão isto!!! Quem nunca?! Hahaha

Velha Patética

Festivaleira à força

«Beltrano convidou-me para ir com ele ao Festival do Sudoeste e vou ter mesmo de ir. O rapaz anda mortinho de vontade e não há quem lhe diga que não. Ainda só saímos há três meses e o mercado não está para se desperdiçar homens. Não é por ser meu namorado, mas o rapaz é um espanto. (…) Disse-me que compreendia se eu não quisesse ir, que sabia que não era a minha onda. Como em matéria de festivais me fico pela Eurovisão, iria sozinho com os amigos, sem problemas. Como tiro anos de cima de mim a todo o momento e não sabe quantos tenho, acha que nasci ontem, amor da minha vida.
Pois, pois, até parece que não andam por lá vadias à solta. Sobretudo as inglesas que vêm a Portugal em manada, com turismo sexual em vista, e vão atrás de tudo o que mexe. Jeitoso como está o meu menino e, para além disso, sendo bilingue, se não mos põe ele sozinho por sua própria vontade, alguma mo há de levar enquanto eu não estiver por perto. Por isso aqui me tens, festivaleira aos quarenta anos. Mudam-me à força, por isso lá vou pela primeira vez.»”

Ah pois é, da maneira que isto anda, há que manter a rédea apertada! Hahaha 

inEstereótipas”, de Luz Sánchez-Mellado

Se decidires ler, depois conta-me tudo. Se e com qual das “Estereótipas” mais te identificaste, ou com as quais mais te cruzas na vida. Acima de tudo, espero que te divirtas tanto quanto eu me diverti com esta leitura!

Susana Figueira

    Escreve aqui o teu comentário

    Parcerias