Ideias com asas

São João de Tarouca e Santa Maria de Salzedas, regressar às memórias

Outubro 1, 2020
Mosteiro de São João de Tarouca

Há 18 anos fiz uma viagem que ficará para sempre tatuada na minha alma. Em agosto, quis revisitar dois locais que descobri naquela que foi a minha primeira grande aventura pelos caminhos de Portugal. No dia de São Bernardo, a Ellen (não a Degeneres, mas a depressão) resolveu dar o ar de sua graça e ofereceu-nos o romantismo de uma chuva de verão, abençoando assim o nosso regresso ao Mosteiro de São João de Tarouca e ao Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Eu prometi que escrevia um post sobre estes dois locais pertencentes à Ordem de Cister e as promessas são para se cumprir.

Mosteiro de São João de Tarouca

Há 18 anos, quase a fazer 19, eu e Mr. J. partimos em viagem de lua-de-mel. Um querido amigo, que já não está entre nós (talvez esteja, quem sabe, junto de São Bernardo), desafiou-nos a visitar alguns dos locais mais marcantes da Ordem Cisterciense em Portugal. Amantes de história e de sítios sagrados, achámos que seria fantástico colocar num roteiro, toscamente traçado, alguns mosteiros desta ordem que teve a sua origem em 1098. Foi inesquecível, ao ponto de querermos voltar. 20 de agosto de 2020, foi o dia.

Lembro-me bem da primeira vez que pisámos o chão de Mosteiro de São João de Tarouca, no Vale Varosa, e nunca mais esquecerei a alma apaixonada que nos guiou numa visita cheia de pormenores e de história. Os anos passaram e o primeiro mosteiro cisterciense masculino construído em Portugal continuou lá. À sua volta teve lugar uma das maiores intervenções arqueológicas no nosso país, permitindo, hoje, ao visitante compreender o edifício tal como ele era, antes da extinção das ordens religiosas em Portugal. De mapa numa mão e chapéu-de-chuva na outra caminhámos pela história. Os anos passaram e no antigo celeiro ergue-se um Centro Interpretativo. Está tudo diferente, mas a igreja abacial, essa mantém-se igual: o nicho com São João Baptista, o túmulo de 13 toneladas do filho bastardo de D. Dinis, o cadeiral barroco, o quadro que representa São Pedro… Só não está lá aquela alma apaixonada que nos recebeu há 18 anos com tanta dedicação.

Lembro-me bem da primeira vez que pisámos o chão do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e nunca mais esquecerei a revolta e a tristeza que sentimos. Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, a decadência tomou o lugar de assalto. Há 18 anos, a igreja era o único edifício digno. Tudo à sua volta era desolação. A história perdia-se todos os dias numa paramenta carcomida pelo tempo ou nas folhas de um livro de cantochão espalhadas pelo soalho. Lembro-me bem do claustro abandonado. Algumas das dependências monásticas foram vendidas em hasta pública. Hoje, ainda há muito trabalho para ser feito, mas a revolta deu lugar à serenidade e a alegria ocupou o lugar da tristeza. Hoje, Salzedas renasce das cinzas da ignorância. É possível percorrer as memórias de outros tempos através de um trabalho de restauro notável e que podemos acompanhar num vídeo inspirador. Dezoito anos depois perdi-me num sorriso tolo ao longo de um corredor imaculado, guardião de peças artísticas que sobreviveram a anos de abandono e pilhagem.

Santa Maria de Salzedas

Sabia que tinha de voltar. O regresso aconteceu no dia de São Bernardo, o monge que mandou edificar o Mosteiro de São João de Tarouca. Não foi intencional, mas quis o destino que no dia 20 de agosto de 2020, fossem escritas novas memórias.

Rosarinho

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