Ideias até ao infinito

Eu, faminta, me confesso

Maio 21, 2020
liberdade pós-confinamento

Esta liberdade que conquistámos  na era pós-confinamento é uma liberdade estranha. Existem ainda muitas restrições, que fazem todo o sentido, por não existir uma vacina que nos proteja do malvado, aquele cujo nome não quero mencionar. Entrei na fase do “Ambrósio, apetece-me algo”…  Eu, faminta me confesso. Este post é sobre a minha vontade voraz de ir ao cinema, de jantar fora, de estar com pessoas, de viajar e de andar na rua sem medo.

 * Ir ao cinema *

Tenho visto muitas séries e filmes em casa. Obrigada por existires Netflix. Mas nada substitui uma ida ao cinema. As saudades que eu tenho do ritual do cinéfilo: escolher o filme, averiguar em que sala está, quais os horários das sessões, comprar os bilhetes, ir mais cedo e dar uma volta no shopping, chupar dropes de anis no escurinho do cinema (ou pipocas salgadas) enquanto levamos com a publicidade. Até sinto falta do raio do intervalo para fazer um chichi, comprar mais pipocas ou trocar as primeiras impressões sobre o filme. A última vez que coloquei os pés no cinema foi na  semana antes do confinamento. Agora tenho o sofá, o Nuno Lopes (White Lines) e a Olivia Colman (The Crown). Não sei porque é que estou a reclamar!

Óculos 3D

* Jantar fora *

Acho que já bebi mais garrafas de vinho nos últimos meses que em toda a minha vida adulta (talvez esteja a exagerar). Qualquer assunto é perfeito para se abrir um tinto. Seja o dia de Clube de Leitura, seja o dia de Clube de Escrita (tudo on-line), seja um petisco de fim de semana, seja beber para esquecer estes dias enfiada em casa com medo do bicho. Eu sei que alguns restaurantes abriram as suas portas. Num destes dias desafio Mr. J. para um jantar romântico. São muitos os cuidados a ter e imensas as regras, quero lá saber! Coloco a máscara na cara e o gel na mala e aí vou eu ajudar a economia a renascer das cinzas. As saudades que eu tenho de experimentar novos espaços, viver diferentes experiências gastronómicas… Só de pensar até sinto um ratinho no estômago.

* Estar com pessoas *

Qualquer dia já não me posso ver à frente! Sou sempre eu, eu, eu e o Mr. J.. Que saudades tenho de estar com as minhas pessoas. Elas estão longe, embora as tecnologias nos deem a sensação de que estão perto. Um falso conforto. O único possível. No entanto falta-me o toque, os abraços, as gargalhadas ao vivo e a cores! Sinto falta de ir  a Lisboa, com a Susana, para uma reunião de trabalho, ou para uma inauguração. Anseio trocar ideias com gente sentada ao meu lado. Desejo marcar cafés ao final do dia com as amigas. Jantares e conversas pela noite dentro.  Regressar tarde a casa e subir as escadas a dormir.

Clube de Leitura, livros à sexta

* Viajar *

A necessidade de pegar nas malas e ir poderia encabeçar esta minha lista de mulher faminta. No entanto tudo o que escrevi aqui me faz falta com o mesmo peso e medida. No próximo fim de semana era suposto apanhar a camioneta para o Porto para ver os The Script no North Music Festival. Dia 10 de junho era previsível apanhar um avião para Londres. Em meados de agosto estimava-se que embarcasse para a Holanda. Tudo isto foi pelos canais abaixo. Resta-me a alegria de saber que tenho, sempre, o meu país para passear. O charmoso mês de agosto vai abençoar a minha road trip pelos caminhos de Portugal. Vou escrever postais, comer iguarias que tais e esquecer os areais. Estou sem paciência para semáforos, senhas ou outras invenções necessárias para colocar o pé na terra do verão. Acho que este ano não vou meter o meu corpinho ao sol. Suspiro, o cheiro a maresia entra pelas narinas.

Cidade do Porto

* Andar na rua sem medo *

Fujo das pessoas. Salto de passeio em passeio para manter a distância social. Não me apetece sair, mas o mundo está lá fora e tenho de seguir com a vida. Tento-me convencer todos os dias. Não é fácil. Porque aquele, cujo o nome não quero mencionar, é o dono do pedaço. Acha que chegou para ficar e enquanto ele pensar assim o medo rodeia os nossos movimentos. Parecemos bichos do mato. Fugimos uns dos outros para nos protegermos. O bicho é ele e está por todo o lado. Anseio por dias de sobe e desce rua com a cara destapada e sorriso desenhado no rosto. Nunca mais fui às compras, o herói de serviço dessa tarefa hercúlea é o Mr. J.. No domingo apeteceu-me ir ao IKEA comprar molduras para terminar de compor a minha galeria privada, no corredor cá de casa. E fui, sentada no sofá, de computador ao colo e cartão de crédito na mão. Desejo, muito, abrir a porta de casa e respirar sem pensar. Sair sem panicar. Existir naturalmente.

Lisboa

Se também pertences ao clube das pessoas famintas, partilha comigo. Tens uma vontade voraz de…

Rosarinho

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