Clube de Leitura - Livros à Sexta Ideias para a agenda

As aldeias não morrem, pois não?

Abril 28, 2020
Um dia a aldeia acabou

O galo Pimpão calou-se.  Na penumbra do meu quarto fecho o livro. A garganta bloqueada num soluço contido. 
As aldeias, não morrem, pois não?

Um dia a aldeia acabou de Nuno Franco Pires

Tal como em “Searas ao Vento” (primeiro livro de Nuno Franco Pires), “Um dia a aldeia acabou” arrebatou-me. Se na sua primeira incursão pela literatura, Nuno contou algumas histórias da sua família, aqui, na simpática Aldeia de Santa Isabel, aborda o tema do envelhecimento e desertificação das aldeias do interior. Um livro revelador da vivência alentejana. O Nuno, exímio contador de estórias, tem a capacidade de acordar o Alentejo que há em mim. 

Um dia a aldeia acabou de Nuno Franco Pires

Choro muito facilmente durante um filme. A música, as deixas, o ambiente roçam o meu coração e os olhos molham-se. Já com os livros, a lágrima é difícil de cair. Mas esta aldeia, estas gentes, estas tradições, começaram a nascer em mim à medida que vivia cada página. Eu fui Amélia, eu fui Manuel, eu fui Senhorinha, eu fui Esperança, eu fui Onofre… A aldeia alvoreceu em mim. Sentei-me tantas vezes à mesa com aquela família a tomar o mata-bicho. Tratei das flores do canteiro, assisti a partos, fui a casamentos, lamentei despedidas, fiz promessas à Santa Padroeira; dancei ao som da sanfona do Chico, fui ao lugar da Alzira comprar café e passei à porta da taberna do Aristides (as mulheres não entram), visitei a herdade dos Mendonça, a máquina que permitia que a vida pulsasse em cada rua, em cada casa. Ao meio-dia toda eu era aldeia e foi nessa altura que senti o meu rosto molhado de emoção. 

Um dia a aldeia acabou, de Nuno Franco Pires

Um dia a aldeia acabou” é uma edição  de autor (aplaudo de pé). Foi um verdadeiro trabalho de equipa. Um entardecer de ideias que resultou numa obra de arte. Este livro é encantador, nele tudo está em harmonia: a capa, as ilustrações, a paginação… Em cada detalhe, minuciosamente pensado, está uma declaração de amor ao Alentejo. Por isso, foi fácil escolher o livro que iria ler para o nosso Clube de Leitura – Livros à Sexta. Que melhor título para encarnar a temática amor? Eu sei que muitos dos livros que estão à espera para serem lidos, cá em casa, se encaixavam no tema. Mas esta aldeia reflete o amor pela escrita, pela terra, pelas tradições, o amor que alimenta o sonho. 

Um dia a aldeia acabou, de Nuno Franco Pires

Os dias de isolamento social estão a entrar no seu ocaso. Tenho refletido sobre este novo desafio do ser humano. O Nuno não sabia, mas o seu livro nasceu na altura certa. Hoje, rodeada por quatro paredes, num mundo que respira na sombra da incerteza, sinto medo do futuro, mas encontrei na aldeia dentro de mim a capacidade de transformar o medo em esperança. No ano passado vivi dias muito especiais no Alentejo. Entre abraços de gente boa, festividades e comida de aconchego, respirei a pureza da minha essência. “Um dia a aldeia acabou” relembrou-me essas ternas memórias e confidenciou-me que ainda há tempo. Tenhamos consciência do que nos está a acontecer, mudemos, cresçamos e um novo amanhecer ser-nos-á concedido.
As aldeias, não morrem pois não?

Ao longe um galo canta.

Rosarinho

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