Ideias para a agenda

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Abril 23, 2020
A vida invisível de Eurídice Gusmão

A frase, “A Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice”, resume o livro. Não é a primeira frase, mas poderia ser pela força que ela tem. Esta mulher passa a vida numa luta interior entre aquilo que ela queria ser e aquilo que a família e os padrões da sociedade, do anos 40 do século XX do Brasil, queriam que ela fosse. A parte de mim que ficou feliz com a chegada do livro (obrigada Porto Editora) é a parte de mim que agora escreve umas linhas sobre um romance em tempo de pandemia.

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Em dias atípicos, num mundo diferente, ler este livro foi um bálsamo de divertimento. Muito agradeço à Martha Batalha pela sua escrita: divertida, única, consumi-a como se fosse o pavê de frutas cítricas com calda de chocolate servido na noite do Grande Banquete.

Eurídice, casada com Antenor e mãe de um casal, poderia ter sido o que quisesse. Assim quisesse ela com todas as suas forças. Na sua invisibilidade, ela foi uma promissora música, uma chef de cozinha, uma designer de alta-costura. Estes talentos estavam todos lá. No entanto, ela era apenas a dona de casa perfeita.

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados, ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório, ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas, ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram umas cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Todos os seus empreendimentos são bem-sucedidos. Porém, o empreendimento maior, que era levar os projetos para a frente, esse, ela falhou. Careceu-lhe a coragem para enfrentar Antenor e afirmar-se. Faltou-lhe a força para tirar o manto de invisibilidade. No fim, baixava, sempre, a cabeça e voltava ao papel de dona de casa, aquele que lhe é permitido (exigido?). 

Depois de uma prolongada apatia, após todos os seus projetos (podemos chamar-lhes sonhos) lhe terem sido negados, sentou-se no sofá de frente para a estante de livros, cansada. Durante muito tempo ela só olhou os livros, até que um dia ela os viu. E é nesse momento que nasce a Eurídice do tec tec tec, tec, tec tec. Eurídice enche os seus dias de livros e de escrita. Tec tec tec, tec tec tec, o som da máquina de escrever passou a ser a sua realidade e “A história da invisibilidade”, a sua obra ocultada numa gaveta.

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Este livro também é Guida, Zélia, Filomena, Antônio, Dona Eulália, Seu Manuel e Dona Ana. Personagens muito bem construídas, fascinantes. Duas delas foram baseadas nas avós de Martha Batalha. Afeiçoamo-nos a elas e, quando a última frase surge, queremos mais. Já sentimos saudades das peripécias e das vidas que acompanhámos ao longo de 214 páginas. Ah! É verdade, também há um pouco de Portugal nesta estória…

Eurídice queria muito mais da vida, mas a vida nunca permitiu que a Parte de Eurídice Que Queria Mesmo Que Eurídice fosse Eurídice, acontecesse.

Rosarinho

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