Ideias à solta

Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia

Abril 21, 2020

O mundo fechou-se e eu fechei-me dentro de mim, algures aqui, nas profundezas do que sou, sustenho a respiração, está escuro nesta quarentena forçada pela tua partida, em data já incerta, mas algo ainda reluz. Não sei se são lembranças tuas, ou se reflexos de ouro que um dia encontraste por aqui. 

Se decidires deixar o confinamento por uma hora que seja, sai de casa e entra pela janela da minha alma que dá de frente para o sol, destapa as nuvens cinzentas, aquelas que ficam mais altas do que as árvores que tocam no céu, toca-me tu também… Ou antes caminha pela minha pele, com passos suaves por entre músculos robustos, veias grossas de sangue e desejos soterrados em mim.

Caminha ou saltita (airosa), saltando por entre poças de mágoas antigas, feridas que nunca sararam, mas que vão secando…

Se caminhares por entre a minha pele do lado de fora encontrarás suor sem toxinas e sal q.b.

Se caminhares do lado de dentro, tenho a certeza de que acabarás por irromper como uma estalada no meu peito, com sede de futuro, sairemos ambos do casulo. Ou então encontra a passagem secreta para a floresta onde eu pertenço. Se te perderes, nada temas, pertences-me. Se continuar escuro não desesperes por claridade, eu estarei logo ali à frente para te receber (de candeia na mão). Vai por onde o verde se adensa, a maresia descansa, o som da natureza tiver mais efeitos especiais dos animais nativos. Vai por onde a luz respira, por onde o perfume da minha pele sobressai, por onde os teus passos fiquem mais leves e soltos.

Quando deixares de sentir o chão, chegaste! Seja por eu te pegar ao colo ou pelas plantas rasteiras te elevarem.

Perde-te as vezes que forem precisas, até que me encontres.

Não, nem todos encontrarão a respetiva floresta, nem todos encontrarão a luz, nem todos se encontrarão, nem todos chegarão à praia… Não, não ficará tudo bem!

Mas para nós ficará!

Caminha, um passo a seguir ao outro, ou levita por dentro da minha pele, por dentro do fundo do mar, de um vulcão ou da minha próxima prosa. Ainda te espero… As vidas que forem precisas… Sei que valerá a pena… Não há pandemia para o verdadeiro amor.

Continua caminhando, eu deixo a janela da minha pele aberta, caminha sem medo de caíres, que a vida por si só é queda livre e eu serei céu almofadado para o teu chão.

Filipe Correia
Abril 2020

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