Ideias para a agenda

A “avó pediu desculpa” e… esta miúda A.D.O.R.O.U!

Abril 7, 2020

“A minha avó pede desculpa”, de Fredrik Backman

Elsa tem sete anos, a caminho dos oito. Sabe que não é lá muito boa nisto de ter sete anos de idade. Sabe que é diferente. (…) A Avozinha tem setenta e sete anos de idade, a caminho dos setenta e oito. Também não tem lá muito jeito para ter a idade que tem.

Apesar de não serem as primeiras frases deste livro, aparecem-nos logo na primeira página e, para mim, introduzem na perfeição todo o desenrolar de uma história e que é – na minha opinião, claro – uma das mais belas sobre o poder que contar estórias pode ter na vida das crianças. E, neste livro, Fredrik Backman conta-nos uma poderosa estória de Amor, com A grande mesmo.

O fio condutor desta maravilhosa obra é a relação entre avó e neta, as melhores amigas uma da outra, sendo que, “quando a Avozinha morre e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa”. E a pequena Elsa vai descobrindo toda uma outra faceta da Avozinha, que a vai deixando ora zangada ora surpreendida, mas que, no final, deixa espaço para que o Amor vença todos os obstáculos!

Em vez de te contar pedaços desta história, vou dizer-te que ler “A minha avó pede desculpa” leva-te a entrar na “Terra-de-Quase-Acordar”, montada num “animal de nuvem”, onde vais descobrir os seis reinos que a compõem, o mesmo é dizer o mundo que a Avozinha criou quando os pais de Elsa se divorciaram, evento que provocou na criança o medo de dormir. E “Miamas é o reino secreto de Elsa e da Avozinha”. Ao avançares nas páginas deste livro, conheces as criaturas mágicas que fazem parte da “Terra-de-Quase-Acordar”: dos “enfantes” aos “arrependedores”, o “Agoreen” e os “wurses”, os “anjos-de-neve” e os “príncipes, princesas e cavaleiros” e “Coração-de-Lobo”. E é através deste imaginário que vais percebendo que esta foi a forma que a Avozinha encontrou para fazer sempre tudo o que estava ao seu alcance para tornar melhores os dias mais difíceis da pequena Elsa.

– Não queria que este dia te ficasse na memória por causa do que aconteceu ao cachecol. Portanto, em vez disso, podias recordá-lo como o dia em que a tua Avozinha assaltou um jardim zoológico (…) – Suponho que modificar memórias é um bom superpoder.” 🙂

E se eu te disser que amei o facto de na “Terra-de-Quase-Acordar” o tempo se medir “em eternidades”! Que mais não é do que medir o tempo “de acordo com a forma como nos sentimos”. E este livro está carregado de pequenas-grandes preciosidades poéticas como esta!

É assim que se mede o tempo na Terra-de-Quase-Acordar: em eternidades. Como não há relógios na Terra-de-Quase-Acordar, o tempo é medido de acordo com a forma como nos sentimos. Se parece ter passado uma eternidade, dizemos «uma eternidade inferior», e se parece ter passado mais ou menos duas dúzias de eternidades, dizemos «uma eternidade absoluta».A única coisa que é mais do que uma eternidade absoluta é a eternidade de um conto de fadas, que, por sua vez, é uma eternidade de eternidades absolutas. E a espécie mais longa de eternidades que existe é a eternidade de dez mil contos de fadas, o maior número que há na Terra-de-Quase-Acordar.

Quero ainda dizer-te que Elsa é uma “criança de quase oito anos” muito esperta, aliás, “muito madura para a idade”, como alguns adultos a descrevem quando os corrige por não saberem distinguir “” de “à”. E, como tal, adora super-heróis e Harry Potter (o seu cachecol dos Gryffindor assume grande relevância nesta história) e pesquisa e aprende muita coisa na Wikipédia, nomeadamente, palavras que desconhece… a propósito de palavras, Elsa tem um “frasco das palavras” (pormenor delicioso)!

Todas as crianças de sete anos merecem ter um super-herói.” (é assim que começa esta história)

A esta altura, talvez já tenhas pensado “hmm… este Frederik Backman diz-me qualquer coisa”. Pois, é o autor de “Britt-Marie esteve aqui”, a tal “personagem que marca, que fica para a vida” que aqui te demos a conhecer em janeiro.

Agora, e se eu te disser que a história de Britt-Marie começa aqui, neste “A minha avó pede desculpa”? Pois é, sem o saber, fui surpreendida com a presença desta marcante personagem na estória de Elsa e da Avozinha. E, ao longo do livro, dá para ir percebendo o mundo de possibilidades que o autor viu em Britt-Marie para contar, depois, uma estória só sua.
Por que motivo só agora li este “A minha avó pede desculpa”, se antecede “Britt-Marie esteve aqui”? Simples, porque só depois me chegou às mãos.

Este facto acrescentou ainda mais surpresa na leitura da estória de Elsa e da Avozinha, porque dá para reconhecer alguns traços na escrita Frederik Backman. Desde logo, uma delicadeza e sinceridade que consegue manter na sua escrita, mesmo quando nos está a descrever situações de maior infelicidade e dor, e um humor que não vou chamar de “tipicamente sueco”, porque desconheço (o livro de Britt-Marie foi a primeira vez que li um autor sueco, i believe), mas que, seguramente, será “tipicamente Frederik Backman”.

Os professores de Elsa afirmam que ela tem «problemas de concentração». Não é verdade. (…) Elsa não tem quaisquer problemas de concentração. Simplesmente, concentra-se nas coisas certas. A Avozinha acha que as pessoas que pensam devagar acusam sempre as que pensam depressa de terem problemas de concentração. «Os idiotas não conseguem perceber que os não-idiotas já despacharam um pensamento e estão a avançar para o seguinte antes deles. É por isso que os idiotas têm sempre tanto medo e são tão agressivos. Não há nada que os assuste mais do que uma rapariga esperta».

Antes de terminar, e porque acho bom de mais para não mencionar, “A minha avó pede desculpa” partilha igualmente com “Britt-Marie esteve aqui” o pormenor delicioso dos nomes de algumas personagens! Começa logo pela Avozinha, depois a Mamã, ou a Olhos Verdes (uma mulher polícia), o “menino da síndrome” (que vive no mesmo prédio de Elsa), o Monstro ou “a mulher da saia preta”, mas também Renault, Kia e Audi os automóveis desta história, aos quais Elsa atribui importância de personagens! É maravilhoso!

Sobre este “A minha avó pede desculpa” quero ainda dizer-te que aconteceu algo que, até hoje, não me lembro de me ter acontecido na leitura de um livro… Para perceberes o quanto AMEI esta história sobre o poder das estórias, dei por mim a abrandar o ritmo de leitura conforme me aproximava do seu final! Porque não queria que acabasse! Porque não queria deixar a “Terra-de-Quase-Acordar”! Porque queria montar um “animal de nuvem” e voar até ao “reino de Miamas” e ali me perder nas estórias desta Avozinha “de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério…”

Por isso, para já, este é não só o melhor livro que li até agora em 2020, como entra para o meu top de favoritos de sempre! Querem ver que estou a ficar fã de Frederik Backman?! É que agora estou curiosa para ler o seu primeiro romance – “Um homem chamado Ove” – que, dizem, é best-seller do The New York Times e já deu origem a um filme (com o Tom Hanks, acho)! E termino com um, sim, aconselho vivamente a leitura de “A minha avó pede desculpa”!

Susana Figueira

P.S.: Este livro foi a minha escolha para o último encontro do Clube de Leitura – Livros à Sexta, que aconteceu na sexta-feira passada e cujo tema era “Consciência”. Como deves calcular, peguei no facto de a Avozinha ter deixado várias cartas a pedir desculpa a quem prejudicou, levando a pequena Elsa a embarcar numa aventura inimaginável. Portanto, o seu exercício de “Consciência”. Deves estar a perguntar-te “com as restrições impostas, como é que reuniram? Hehehe Fácil, aproveitámos o lado bom das tecnologias e organizámos um encontro virtual! Porque com todo o TEMPO que não tínhamos e agora temos a vontade de partilhar leituras é ainda maior!

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