Ideias à solta

O Mundo dos Livros, by Anna

Março 17, 2020
No mundo dos livros by Anna

“Bom Dia Tristeza”
Françoise Sagan

Quando, em 1954, “Bom Dia Tristeza” foi publicado tornou-se imediatamente num dos maiores escândalos literários em França. Sagan teve a ousadia de escrever uma novela sobre uma jovem que vive com o pai, um bon vivant, e que não se preocupa com as relações deste com outras mulheres. A sociedade hipócrita do pós-guerra estava ainda menos preparada para ler na primeira pessoa sobre uma jovem que não vê sentido algum em estudar, que bebe demasiado para a idade e que desfruta das suas primeiras experiências sexuais com o namorado, Cyril, sem a menor intenção de se casar. Podemos facilmente imaginar os leitores da época a chamar a novela de amoral e perigosa para a juventude. Certamente estava à frente do seu tempo, à frente da revolução sexual da década de 60. Por esse motivo escandalizou tanta gente, no entanto, também foram muitos os que se renderam a este livro.

A fama de Françoise Sagan foi muito precoce. Com apenas 19 anos, escreveu “Bonjour Tristesse”, que foi celebrado pela crítica, premiado e levado ao cinema. O que veio para a autora não correspondeu, no entanto, aos presságios da época. Algumas peças teatrais, outros livros de relativa importância, uma vida marcada pelos excessos, crises económicas e doenças transformaram Sagan numa figura, por assim dizer, de duplo sentido: por um lado, uma pessoa controversa e irreverente, porta-voz das liberdades que a juventude burguesa, da altura, procurava, e por outro uma pessoa decadente, perdida nos abismos do seu próprio ser.

Apesar do título, acreditem que a atmosfera que Sagan retrata neste seu romance não tem nada de triste, pelo menos no sentido trágico e lamentável da palavra.

A protagonista deste livro é uma adolescente caprichosa, mimada e órfã de mãe. Desde muito pequena que os seus verões são passados numa casa de sonho com vista para o mar Mediterrâneo, no sul de França, junto a Raymond, o seu pai, e à sua jovem amante, Elsa. Cécile e o seu pai formam uma dupla indestrutível e entre os dois existe uma enorme cumplicidade, até à chegada de Anne, uma antiga amiga de sua mãe. Ela  vem alterar a vida cómoda e despreocupada em que os três viviam.

A maneira de ser de Anne, os seus critérios e valores morais vão chocar de frente com o tipo de vida a que Cécile e o pai estão habituados. E é quando ele, inesperadamente, anuncia a Cécile que se vai casar com Anne que o mundo da jovem começa a desmoronar-se. Porém, a jovem não se submeterá à sua nova (e indesejada) realidade, e com as suas maquinações tentará que o pai mude de ideias e que ele volte para Elsa.

Bom Dia Tristeza” é um romance sobre juventude e Françoise Sagan descreve na perfeição a confusão que sente uma adolescente à beira da vida adulta. Uma adolescente que nunca teve a mãe para a guiar, nem um pai que aceitou o seu papel e responsabilidade. Cécile desfruta de uma vida vazia e despreocupada simplesmente porque não conhece outro tipo de vida. Quando Anne lhe faz ver que ela pode ser e fazer mais, Cécile retrai-se, pois isso significa crescer e ser responsável.

Este é um livro com uma linguagem simples e até poética. Uma novela íntima e encantadora que resiste ao passar do tempo. Uma história curta, mas onde as personagens ficam na nossa companhia muito tempo, mesmo depois de o livro ter terminado.

Boa leitura.
Anna

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