Ideias para a agenda

"Britt-Marie esteve aqui"… e jamais a esqueceremos

Janeiro 23, 2020

“Britt-Marie esteve aqui”, de Fredrik Backman

O título reúne em si mesmo, e na perfeição, a experiência de ler este livro. É que Britt-Marie é uma personagem que marca, que fica para a vida. É uma personagem que te agarra logo nas primeiras páginas, pois encontramos-lhe tanto de familiar como de original e divertida, mesmo sem que ela o queira ser.

Britt-Marie é uma mulher na casa dos 60 anos, com alguns traços de transtorno obsessivo compulsivo, o que, por si só, leva a uma série de situações muito divertidas. Tem uma obsessão desmesurada por listas e por limpeza, que, no caso de Britt-Marie, funciona um pouco como um ‘destress’ quando não consegue lidar no imediato com situações de tensão ou conflito. Ela pega no seu Faxin e limpa tudo de alto a baixo.
Mas Britt-Marie é muito mais do que isto.

Garfos. Facas. Colheres. Por esta ordem. Britt-Marie não é de forma alguma o tipo de pessoa que faz juízos de valor sobre os outros. Longe disso. Mas…” esta última é uma frase que, divertidamente, vai surgindo ao longo da história.

Às primeiras páginas deste livro, Britt-Marie acaba de descobrir uma traição do marido, com quem está casada ‘desde sempre’ e de quem depende para tudo, e para lidar com a situação decide arranjar um trabalho para se sustentar. E, ao longo das páginas, e das peripécias, Britt-Marie vai-nos revelando detalhes da sua vida e da sua relação, e ficamos a perceber como as circunstâncias da vida e as suas escolhas a levaram até à situação que vive neste momento.

Não conserta nada desde que casou. Era sempre melhor esperar que Kent chegasse a casa. Kent costumava dizer que «as mulheres nem móveis da IKEA conseguem montar» sempre que apareciam mulheres em programas de televisão sobre construção ou renovação de casas.

Não quer ser antipática, mas não quer mesmo ajuda com o caixote. Neste momento, nada é mais importante para Britt-Marie do que a sua relutância em ter ajuda com o caixote. Porque, lá dentro, está um móvel da IKEA. E Britt-Marie vai montá-lo sozinha.

Calma, não pretendo ser spoiler, até porque a ideia é deixar-te cheia de vontade de ler este livro.

Ora, o trabalho que Britt-Marie arranja leva-a até um lugar chamado Borg, uma comunidade fortemente afetada pela crise, já que era ‘sede’ de grandes empresas de camionagem, que empregavam muitos residentes. Eu disse era. Porque quando Britt-Marie ali chega, a cidade de Borg parece estar quase ao abandono… mas não.

Borg é uma comunidade construída ao longo de uma estrada. Esta é, de facto, a coisa mais simpática que se pode dizer a seu respeito. Não é um sítio que possa ser descrito como «um num milhão»; pelo contrário, é um sítio igual a um milhão de outros. Tem um campo de futebol encerrado, uma escola encerrada, uma farmácia encerrada (…) e uma estrada que se estende em duas direções.

A querida Britt-Marie vai acabar por enredar-se, no bom sentido, aliás, muito bom sentido, na vida de Borg. À sua chegada, bastam um estoiro do seu carro, uma ‘bolada’ na cabeça, Alguém* que a socorre, crianças que só querem jogar à bola (leia-se, ser crianças), um polícia muito atencioso mas algo desajeitado, uma pizaria, um centro recreativo prestes a fechar mas que é agora o seu local de trabalho, uma ratazana que come Snickers e… futebol, para Britt-Marie ficar para sempre ligada à história de Borg.

O seu primeiro contacto com o futebol em Borg acontece quando uma bola de futebol lhe acerta, com muita força, na cabeça. Isto sucede pouco depois de o seu carro explodir.

O futebol é um jogo curioso, porque não pede para ser adorado. Exige-o.

Então, dá alguns passinhos para a frente e chuta a bola de futebol com toda a sua força. Porque já não sabe como não o fazer.

*E sim, há uma personagem, que se vai revelar muito engraçada, que se chama Alguém. Estive ‘em pulgas’, até ao final do livro, para ver se o autor revelaria o seu verdadeiro nome, mas divertidamente é simplesmente Alguém. Assim como também há uma personagem que é a Rapariga do centro de emprego. Detalhes deliciosos!

Porém, a leitura de “Britt-Marie esteve aqui” também é de alguma forma cinematográfica, porque logo às primeiras páginas, e muito por culpa desta peculiar personagem principal, comecei a imaginar o filme, estava mesmo a ver uma Annette Bening, uma Holly Hunter ou uma Susan Sarandon a vestirem a pele de Britt-Marie… e, curioso, descobri depois que já existe, uma produção sueca mesmo. Ainda não vi, mas já está na minha ‘must watch list’.

Para terminar, digo-te que “Britt-Marie esteve aqui” foi um dos livros que mais gostei de 2019. Fredrik Backman consegue envolver-nos na história desta mulher, que tem tanto de original como de familiar, pois facilmente encontramos paralelismos com a realidade, seja nas características da própria Britt-Marie e na autodescoberta que vai fazendo de si mesma, seja nos elementos que a constroem e nas situações retratadas. Ri, e muito, mas também chorei. E zanguei-me e festejei e sofri e refleti… You get the picture!

Para quando repara na máquina de café. Ou no que resta dela. Britt-Marie, muito constrangida, une as mãos à frente do estômago, com ar de quem gostaria de sacudir o pó da beira de um buraco negro e enfiar-se lá dentro.
– O que… aconteceu? – pergunta Alguém, olhando primeiro para a esfregona e depois para as mossas em forma de cabo de esfregona na máquina de café. (…)
– Foi atingida por uma pedra projetada.

“Britt-Marie esteve aqui”… comigo, e jamais a esquecerei!

Uma vez mais, o nosso obrigada à Porto Editora por este presente!

Susana Figueira

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