Ideias até ao infinito

6 (ou mais) perguntas a… Marta Amaral

Dezembro 3, 2019

Não te deixes enganar pelo seu ar de menina, aparentemente frágil, porque quando conheces a Marta Amaral descobres uma mulher guerreira, cheia de força e que sabe muito bem o caminho que quer traçar para si. De jogadora de futebol na Suíça a professora de hatha yoga em Cascais, desafiámos a Marta para nos dar uma aula e quando a apanhámos (desprevenida) a meio de uma demonstração da vrischikasana, fizemos-lhe 6 perguntas para que possas conhecer esta jovem professora de yoga um pouco melhor… quer dizer, desta vez ‘derrapámos’ e a ultrapassámos a meia dúzia. Mas também, quem nos manda ter conversas com pessoas lindas e superinteressantes?! 😉

❤❤❤❤❤

O que querias ser, ou pensavas que querias ser, em criança?

Acho que em criança quis ser muita coisa. Tudo o que fosse relacionado com desporto. Queria ser jogadora de futebol profissional, surfista profissional… só mais tarde, já adolescente, é que comecei a fazer outras coisas, mas acabei sempre por seguir a área do desporto. Bem ou mal, fui fazendo este percurso sempre. Sendo que joguei futebol na Suíça, não fui profissional, mas fui semiprofissional, durante quase 2 anos. Em parte, digamos que o meu sonho foi realizado. Quanto ao yoga foi algo que apareceu na minha vida. Foi-me apresentado por uma pessoa praticante de yoga, que me mostrou a forma como conseguiu entender o que era o yoga. Que o yoga não era bem aquilo que as pessoas diziam, ou imaginavam, que é estar sentado 1 hora, uma coisa muito estática. Fui começando a ganhar esta paixão, e comecei a praticar. Inicialmente com essa pessoa e depois muito mais sozinha, sem julgamentos. Mais tarde, decidi tirar formações e começar a trabalhar um pouco mais nesta área, porque realmente é o que faz sentido para mim.

Yoga: exercício físico ou um modo de vida?

Sim, é um modo de vida. O yoga não se pode comparar a um desporto, não é desporto. O yoga está mais associado à área da saúde e bem-estar, tanto que tem vários benefícios a nível de ansiedades, de trabalhar com depressões, problemas mais profundos. Então, não se pode equiparar a um desporto. É diferente o tipo de trabalho.

Eu posso ser uma atleta de alta competição e o yoga pode ajudar no desempenho da minha atividade desportiva?

Pode complementar, sem dúvida. Pode complementar qualquer atividade desportiva, até porque em termos mentais nos ajuda bastante, esta parte da meditação, esta parte da respiração… meditar não é só estar sentado e meditar. Podemos meditar de várias formas, inclusive os desportistas de alta competição acabam por fazer a sua meditação, é uma meditação ativa, em que eles estão mais a pensar. Por exemplo, um ginasta pensa nas sequências que tem de fazer e o corpo dele interioriza essas sequências a partir da mente. Portanto, acaba por ser um trabalho muito engraçado e, aí sim, podemos complementar. Dá muito foco. E nós trabalhamos muito a parte de alongamento que, às vezes, nem todos os desportos trabalham. Então, é bom complementar o yoga com outro desporto.

Se fosses uma asana, qual aquela que melhor te definiria?

Tudo o que sejam posturas fortes, em termos técnicos, virabhadrasanas, ou seja, tudo o que são posturas dos guerreiros… para já, é aquilo que acho que me descreve, com o decorrer da minha vida… é exatamente estar lá naquele momento.

[Rosarinho] Eu conheci-te ‘antes do yoga’, e conheço-te ‘depois do yoga’. E gosto muito mais da Marta ‘depois do yoga’. Por isso, é um bocadinho aquela pergunta da praxe, o que é que sentiste que de facto mudou em ti? Eu, por exemplo, senti que mudou em ti o teu sorriso. É muito mais espontâneo, tu és muito mais do toque, és muito mais do abraço e tu não eras tanto assim. És de sorriso fácil e não eras. Claro que terão mudado muito mais coisas, certamente. Quero que nos contes o que é que o yoga te trouxe, que sentiste que provocou mesmo uma mudança na tua vida?

Essa mudança veio sim do yoga, mas também veio de circunstâncias da vida e o yoga esteve presente nessa minha fase mais difícil. A partir do momento em que comecei a entregar-me mais à prática do yoga, comecei a mudar. Também porque a vida me fez mudar e, por incrível que parece, em vez de me fechar, abri-me mais às pessoas, abri-me mais à compaixão, a estar com as pessoas, a conseguir de certa forma essa questão do toque, do sorriso fácil, porque sempre fui uma pessoa muito fechada. Porquê me fechar mais? E abri-me muito mais e o yoga ofereceu-me isso, trouxe-me isso. Com muita luta, muito trabalho, ajudou-me a ultrapassar uma fase muito muito difícil da minha vida. Portanto, não estou a dizer que devo tudo ao yoga, não é isso… devo tudo a mim, porque consegui superar-me e superei-me através de uma coisa boa. Mas, realmente, só prova que o yoga tem muitos benefícios, tanto a nível físico como a nível mental, e muda-nos de dentro para fora. Começamos a trabalhar em nós e cá fora vai notar-se esse trabalho. Sim, estou muito mais sensível, é diferente, já mostro muito mais os meus sentimentos do que antes. Foi um baque que, às vezes, temos de ter na nossa vida. 

Muitas pessoas dizem “não vou para o yoga porque não tenho jeito nenhum para fazer aquelas posturas”, ou “porque aquilo é tudo muito difícil” ou “porque é muito parado e eu gosto mesmo é de transpirar”… Imagina que estavas com um grupo de pessoas à tua volta agora, que nunca praticaram yoga na vida e não estão minimamente com vontade de praticar, mas tu queres muito convencê-las. Porque sabes que lhes vai trazer muitos benefícios. O que é que lhes dirias?

Primeiro de tudo, o yoga é para todos. Não há barreiras, pode haver limitações, mas não há barreiras. Portanto, toda e qualquer pessoa pode fazer yoga, porque o yoga não é só as posturas. É meditação, é relaxamento, é pranayama que são exercícios de respiração que ajudam bastante no nosso dia a dia e, sim, depois temos a parte das posturas. Mas isso é uma pequena parte. Há um conjunto de coisas que são trabalhadas e é isso que nós temos de ter em conta e perceber o que significa exatamente o yoga. Acaba por ser um bocadinho como a questão da comida… “ah eu não gosto daquilo”, “e tu já provaste?”, “não”, “então como é que sabes que não gostas?!” Nós temos que, de certa forma, abrir um pouco a nossa mente a novas experiências e a primeira aula de yoga é uma experiência nova. Por exemplo, um aluno novo que experimente uma aula e que veja à partida que não sabe bem se gosta ou se não gosta, que continue a ir. Continue a ir, que experimente mais uma semana, duas semanas, pelo menos um mês e que nesse mês assuma o compromisso e depois, aí sim, pode dizer que não gosta. Porém, o yoga tem muitas práticas, desde aulas mais leves, restaurativas, de yin yoga, desde aulas de ashtanga que são aulas bastante puxadas, fisicamente são bastante puxadas, aí sim, transpira-se… bastante! E há uma conexão muito grande com a respiração. Há vários tipos de yoga e cada um, se calhar, tem de encontrar o melhor para si. Acho que a uma pessoa que nunca experimentou, eu diria: “Ok, então vamos fazer o seguinte, são só 5 minutos, dê-me 5 minutos do seu dia, que se calhar ia gastar no telemóvel, para eu lhe mostrar um bocadinho o que é o yoga. Em vez de estar no Facebook, no Instagram, dê-me só 5 minutos.

Yoga ao ar livre, ou yoga em sala? O que é que achas que é mais completo, ou enriquecedor… o facto de estarmos em contacto com a natureza potencia mais a experiência do yoga?

Depende. Ao ar livre é muito bom, porque ao ar livre temos outra perceção, conseguimos escutar os sons da natureza, os passarinhos, se for na praia conseguimos escutar as ondas do mar… Mas para quem tenha mais dificuldades em estar focado, há muito mais distrações e as pessoas vão-se preocupar muito com coisas como “aquele está a ver-me e estou a fazer isto mal”… há muito mais este problema. Sim, eu prefiro mil vezes dar aula lá fora, mas tenho de ter consciência de que a pessoa não vai estar lá a 100%, que a prática não vai ser a 100%.

Nós temos um Clube de Leitura, como tu sabes. Então, no âmbito desse clube de leitura queria-te perguntar qual foi o livro que, até hoje, podes considerar que é o livro da tua vida?

[risos] Oh meu deus! Sei lá, gostei de tantos. Gosto muito de tudo o que sejam policiais… também gosto de romances, óbvio. Mas um dos livros que mais me marcou, na fase da adolescência, tenho dois, aliás: o “Diário de Anne Frank”, obviamente toda a gente que leu aquilo… e já estive na Casa de Anne Frank e, realmente, chorei imenso, porque toca, e a pessoa lembra-se de todas as coisas. Outro livro foi “O Perfume”. Foi dos livros que mais me marcou na adolescência. Não é meu, é da minha irmã, ela é que tem a biblioteca lá em casa. Aquela história macabra é tão… é um livro, não é, mas, hoje em dia, a pessoa já vê o que se passa no mundo e… sei lá, é tão macabro. O que uma pessoa consegue fazer… Ao mesmo tempo, ele era uma pessoa abençoada, não é? Porque ele tinha aquele dom, do olfato, só que usou aquilo para o mal, não usou para o bem. Lá está, é a questão das escolhas que fazemos. Se formos a ver, acaba por ser uma mensagem engraçada, ele escolheu ir por esse caminho, quando podia ter escolhido outro… podia ter tido, se calhar, uma carreira muito boa na área da perfumaria. Mas é um livro muito muito bom.

Aqui em Portugal, há alguma pessoa que te marcou ou que gostas de seguir a nível de professor de yoga? [Marisa Sousa]

Sim, mas infelizmente não consigo praticar com ele, porque é em Lisboa, mas é um dos professores que me deu formação do curso. É mais virado para o iyengar, o ashtanga, e é um professor com quem me identifico, pela questão dos alinhamentos, porque sou assim um bocadinho… gosto sempre que a pessoa esteja bem alinhada, porque sei que isso vai trazer bastantes benefícios, quando a pessoa é corrigida quando está a fazer uma postura mal. E identifico-me com ele por alguma razão, e infelizmente não consigo fazer aula com ele, porque a minha vida também é muito preenchida… mas isso não é desculpa para nada. Entretanto, estou à procura de alguém com quem me identifique para fazer uma prática mais integrada numa aula, porque pratico muito sozinha e quero uma prática mais… porque nós professores também precisamos, às vezes, de ser corrigidos, e não só isso, precisamos de alguém que nos leve para outro patamar. Portanto, estou um bocadinho nessa descoberta.

E para quem tem um problema de saúde ou uma questão pessoal, de que forma o yoga nos pode ajudas? [Marisa Sousa]

 O yoga traz-nos aquela questão de vermos a vida de outra forma. E um problema, às vezes, não é um problema. É algo que nós estamos a criar, depende da situação, claro. Mas a questão é: o yoga traz-nos uma perspetiva nova, e nós ao virmos a uma aula… imaginemos que estamos com um problema, esse problema não vai passar, é certo, mas se calhar vamos sair da aula com um espírito diferente, “ok, pelo menos hoje consegui sentir-me e não pensar naquilo”. É o abstrair, é o não pensar constantemente no problema, às vezes isso ajuda a termos uma luzinha e então “ok se eu não consigo solucionar desta forma, vou solucionar de outra forma, porque talvez resulte assim”. Ajuda a ter uma perceção diferente, a olhar para todas as opções e não para uma apenas. E a leveza que nos traz, saímos daqui e deixamos tudo no tapete, é o desapego… quando chegamos lá fora, bem ou mal, isso vai-se transmitir.

Gostaria de agradecer a todos os que me incentivaram e ajudaram a seguir este caminho, não só à minha família em geral (a melhor que podia ter escolhido) mas também a alguns dos meus amigos, que foram essenciais no meu percurso este último ano e meio (Olya, Joana, Daniela)! Obrigada adoro-vos!

Marta Amaral

Então, confessa, ficaste com vontade de praticar yoga com a querida Marta?! Pois é, as miúdas só te apresentam pessoas maravilhosas! E sim, tivemos a ajuda da nossa querida amiga Marisa Sousa, que também aproveitou para satisfazer a sua curiosidade! 😊

Rosarinho & Susana

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