Ideias à solta

No ouvido e na Tela, by Ricardo Dinis

Janeiro 3, 2018

Beck – Colors

Desde o megassucesso de Loser, já no remoto ano
de 1994, que Beck se me afigurou como um artista independente, de uma pop
alternativa que gosta de se redescobrir a si próprio e reinventar canções.
Após os aclamados Modern Guilt, de 2008, e
principalmente o seu sucessor Morning Phase, de 2014, vencedor de quatro
Grammys, entre os quais o de melhor álbum do ano, que a expetativa sobre o
próximo trabalho do artista californiano era alta. O lançamento do pr-single Dreams
em 2015, que figurou nas melhores músicas do ano para a Rolling Stone e
a Billboard, antevia um álbum pop divertido, cheio de boas energias.
Quando ouvimos o trabalho na sua totalidade é
precisamente isso que ressalta ao nosso ouvido: um mix de pop ao mesmo tempo retro
e contemporâneo, como o próprio Beck o descreveu. Ritmos dançáveis, voz num
estilo de falsete folk, tão característicos do músico, capazes de
entreter qualquer pista de dança. Os ingredientes repetem-se em “Colors“, desta
vez, com a presença de flautas, samples de coros e ritmo entretido. Em Up
All Night
, para alguns críticos a melhor música deste trabalho, Beck,
consegue uma das suas fórmulas de sucesso, a fusão entre pop, post folk,
funk e hip hop
, que o tornam num artista tão original. A minha música preferida
é, sem dúvida, Dear life, onde a entrada de piano, se conjuga na perfeição
com a guitarra ritmada e um refrão simples, mas com significado, onde se
exprime a vida atual em que muitas vezes nos limitamos a sobreviver, em vez de
vivermos, onde estamos agarrados a pequenos estímulos mundanos que nos mantêm
vivos. Wow, um tema marcadamente hip hop, com sintetizadores e samples
de coros à mistura, fecha o quarteto de singles.
O restante álbum, apesar de bem construído, acaba por
não trazer nada de novo ao panorama musical atual e à carreira do artista de
LA, enquadrando-se naquilo que se faz na cena pop atual. Aqui,
Beck segue tendências ao invés de reinventar um estilo, algo que nos dias de
hoje é bem mais difícil do que nos anos 90, ou mesmo no início de 2000, quando
surgiu o introspetivo Sea Change. Gravado com um produtor de sucesso
neste universo: Greg Kurstin, que já produziu artistas como Adele, Kelly
Clarkson ou Sia, este é provavelmente o trabalho mais divertido e de ambiente
genuinamente mais pop de Beck, o que não o torna de todo num exercício
menor, deste talentoso e versátil músico, que a par de Greg Kurstin tocam
praticamente todos os instrumentos do álbum.
Nas palavras de Beck, transportar a energia dos
concertos ao vivo para o estúdio foi um desafio alcançado, pois “Colors é, sem
dúvida, um álbum que podemos ouvir e que nos vai fazer garantidamente abanar o
ombro, seja numa fila de supermercado, seja no hedonismo de uma tarde no sofá
da sala.  
O Quadrado – Ruben Östlund
A quarta longa-metragem do sueco Ruben Östlund,
vencedor da Palma de Ouro para melhor filme e melhor realizador no último Festival de Cannes, consagra-o como um dos cineastas europeus de eleição, com
uma visão contemporânea e bastante crítica sobre a sociedade em que vivemos.
Desde 2008, com De ofrivilliga, onde um conjunto de histórias não relacionadas,
acabam por se encruzilhar, passando pelo tema do bullying, Play (2011) e
pelo drama de uma avalanche que se abate sobre uma família nos Alpes, em Força
Maior
(2014), que Östlund nos vai mostrando através da sua lente cinema de
autor, arrojado e criativo.
O Quadrado” pode ser considerado uma aula de sociologia
contemporânea, tantos são os pontos que retrata na sociedade atual. Do
preconceito e estereótipo ao poder das redes sociais e dos media, passando
pelas desigualdades sociais e pelo individualismo humano, muitas das
características do mundo em que vivemos são retratadas nesta obra de Östlund.
O
grande mérito do filme está precisamente nesta panóplia de acontecimentos que
nos fazem refletir sobre a sociedade atual e nos põem a conversar sobre ele,
no fim da sessão. Nele ficam a nu questões e problemáticas transversais a toda
a humanidade, numa sociedade nórdica (o filme passa-se em Estocolmo), que, por
vezes, principalmente nós, os países de sul, achamos quase perfeita, mas que
realmente, na sua índole mais íntima, padece dos mesmos problemas e
desigualdades do resto da Europa. Este retrato é feito de forma exímia desde o
assalto inicial a Christian (Claes Bang), passando pela sua tentativa de
recuperação da carteira, telemóvel e botões de punho, num bairro problemático
de Estocolmo, com a ajuda do seu assistente, Michael (Christopher Læssø). Esta
trama culmina com a recuperação dos pertences de Christian, mas desencadeia uma
acusação injusta a um menino do prédio onde decorre a cena… (de notar a forma
original como Östlund filma cenas em escadas de
prédios, uma espécie de fetiche do realizador).
Voltemos
um pouco atrás: Christian, o protagonista do filme é o curador de um museu em
Estocolmo. Divorciado, com duas filhas, é um bon vivant, cheio de estilo,
bem vestido e com poder pelo cargo que ocupa, ainda mais ligado à arte, espalha
charme por onde passa. Está responsável pela apresentação e divulgação de uma
obra de uma autora argentina, que dá o nome à película – “O Quadrado“. Mas que
quadrado é este? É a própria figura geométrica, mas com regras muito claras: “The Square is a sanctuary of trust and caring. Within
it we all share equal rights and obligations
.”
Esta premissa de que naquele quadrado todos temos os
mesmos direitos e obrigações, serve de pano de fundo a todo o filme e contrasta
com a realidade, que nos mostra que essa igualdade humana, de espírito
coletivo e amor ao próximo, não existe, pois vivemos numa sociedade cada vez
mais individualista (cenas no metro e na rua em que Christian pede ajuda e
acaba por ser um sem-abrigo a fazê-lo, são elucidativas da mensagem do
realizador/argumentista).  
O filme é pautado por vários momentos de sátira, onde
os elementos cómicos e até de algum desconforto no espectador ganham força,
como são exemplos as cenas da conversa com um preservativo usado nas mãos entre
Christian e Anne (a sensual, ingénua, mas misteriosa, Elisabeth Moss) ou a cena
do espectador com síndrome de Tourette na apresentação da obra de um
artista, que solta palavrões de forma incontrolável e involuntária. A tensão
sobe na conferência de imprensa que Christian dá para se demitir, como curador
do museu, após uma campanha publicitária e de marketing, que, apesar de se ter
tornado viral, gera inúmeros protestos de todas índoles e esferas sociais, por
colocar um vídeo de uma menina loira a explodir quando está dentro do tal
quadrado. No último terço do filme acontece uma das cenas mais emblemáticas,
que, aliás, serve de trailer, onde Terry Notary (“Planeta dos Macacos” e
“Hobbit”), encarna um homem-macaco que destrói por completo um jantar de gala,
onde está a mais fina nata da sociedade de Estocolmo… Deixo à reflexão do
espectador as conclusões a retirar destes minutos desconcertantes.
A parte final
revela-nos um Christian na tentativa de redenção consigo próprio, procurando
desculpar-se da injustiça que provocou ao menino do bairro pobre, a quem acabou
por prejudicar com a carta colocada naquele prédio. Umas das cenas finais, de
elevada beleza estética e comovente, mostra Christian à chuva a vasculhar todos
os sacos do lixo do prédio em busca do contacto do menino, para lhe pedir
perdão pelo sucedido, será que ainda vai a tempo?
O Quadrado” merece definitivamente uma ida ao cinema
(no Porto aconselho o cinema Trindade, reaberto este ano). Nele, Östlund, com o
seu olhar psicológico e social traz para a grande tela o estabelecimento de
dilemas ou quebras de contratos sociais e de como o ser humano reage aos
mesmos. Através de algumas situações ridículas e até absurdas, o filme traz ao
de cima, de um modo natural, toda a tensão e sentido cómico necessários a cada
momento.
Ricardo Dinis

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