Ideias à solta

No Ouvido e na Tela, by Ricardo Dinis

Outubro 16, 2017
“IT” – Andy Muschietti
 
Primeiramente gostaria de enquadrar a minha
escolha de filme deste mês. As minhas primeiras opções para me deslocar a uma
sala de cinema eram o “Detroit”, da K. Bigelow, ou o “Mother”, do
D. Aronofski. Habitualmente, costumo ver cinema no Alameda Shopping, por questões
de proximidade e porque contempla menu de jantar e cinema por €8, o que é
bastante convidativo. O problema destas salas é que exibem os filmes a horas
que, para mim, são madrugadoras, como 20h ou 20h20, que eram os casos das minhas
escolhas principais…
 
Tendo falhado as escolhas iniciais, tive
de arranjar um plano B, as opções reduziram-se bastante, entre um filme de
animação, uma comédia romântica, um filme de acção/biopic de um traficante de drogas e o “IT“. Confesso que não sou fã
de filmes de terror. Gosto de um bom suspense,
de um thriller psicológico, mas
sustos de monstros feiosos, zombies e sangue a jorrar por toda a parte não
perfilam entre as minhas preferências. Ainda assim, decidi experimentar…
 
Bom, vamos ao filme, prometo ser breve! “IT“, do argentino Andy Muschietti, que se baseia na obra de ficção de Stephen King, é
um remake da série de TV com o mesmo nome de 1990. Retrata a história de um
grupos de sete jovens adolescentes de uma pequena cidade americana – Derry -, que vive assombrada pela misteriosa
presença de um palhaço diabólico, que tem sido responsável pelo desaparecimento
de várias crianças nos últimos tempos…
 
A premissa do argumento, à partida, até é
interessante, mas com o desenrolar da trama apercebemo-nos que não. Todo o
espectro social de uma pequena urbe americana se encontra bem retratado. Desde
um pai violador, uma mãe demasiado obesa e hipocondríaca até um grupo de
miúdos que praticam bullying ao grupo
de nerds protagonistas do filme. O próprio grupo de adolescentes se afigura como clássico: o gordinho, o corajoso, a
rapariga mais velha que desperta paixões, o rapaz negro, o cientista e o
engraçadinho. O humor, com piadas típicas de adolescentes, que estão muitas
vezes presentes nos filmes de terror para alivar a tensão, é também um
ingrediente do filme. A paixão acompanha igualmente a evolução da história
através de um triângulo amoroso entre Bill (o corajoso), Ben (o gordinho) e Beverly
(a rapariga sexy). A banda sonora
revela-nos algumas pérolas dos The Cult ou The Cure, que nos fazem abanar o
tronco na cadeira da sala.
 
O “nosso” grupo de pequenos heróis parte numa
demanda para encontrar o irmão desaparecido de Bill, o Georgie. Nesta procura, vão-se apercebendo da existência de um ser maquiavélico que rapta criancinhas
indefesas. As aparições do “palhaço” (excelente desempenho de Bill Skarsgard) vão-se repetindo isoladamente a cada uma das crianças, sob a forma de diversos
sustos, onde cada um contacta com a misteriosa criatura que os atormenta dia e
noite. Os dentes afiados de tubarão, os sons metálicos e estridentes,
conjugados com boas doses de sangue (o ex-líbris
é a cena no WC de Beverly) são comuns nestas aparições do vilão da história.
 
Após alguns conflitos, recuos e avanços, os pequenos
protagonistas decidem entrar na casa abandonada, conhecida como The Barrens,
onde habita o maléfico palhaço. A partir daqui, desenrola-se uma cadeia de
cenas na tentativa hercúlea de resgatar o pequeno Georgie e matar o psicopata, que tem vindo a quebrar a calmaria da pequena cidade. O filme tem o mérito de
conseguir criar algum suspense, pois somos levados a supor se este palhaço
existe mesmo, pois só as crianças parecem vê-lo, ao contrário dos adultos que
continuam com as suas aborrecidas vidas. Poderia ser apenas uma metáfora, com a
mensagem para que cada criança enfrente os seus medos e desafie aqueles que as
desrespeitam. Sem querer ser spoiler, a reta final dececiona, pois na realidade
este palhaço existe mesmo, é uma figura real, apesar de ficcionada, que
assassina criancinhas e as armazena penduradas no seu covil…
 
Se gostarem deste género, uma boa dose de
sustos, num cenário de filmes de adolescentes, irão, sem dúvida, apreciar “IT“,
caso contrário sairão desiludidos e com a sensação de que viram um livro de
“Uma Aventura”, da Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, transferido para o grande
ecrã, mas com muito mais sangue, medo e terror à mistura.
 
“Concrete
and Gold” – Foo Fighters
 
O último álbum de originais dos americanos Foo
Fighters não desilude. Dave Grohl e companhia continuam na senda do rock’n’roll, com mais um disco pujante,
ainda que com altos e baixos. A banda tornou-se, sem dúvida, numa das maiores hit makers contemporâneas, com temas
como “Run”, o primeiro single do álbum,
a ser exemplo disso mesmo. Nele está presente, mais uma vez, um refrão simples,
cantável e viciante, conjugado com um ritmo de bateria potente de Taylor
Hawkins, que é, sem dúvida, o coração da banda. Se Hawkins é o coração, Dave
Grohl é a alma! Neste mesmo tema, os berros característicos do front man fazem-se ouvir alto e bom som,
bem acompanhados por um instrumental mais hard rock, com o baixo e a guitarra a
darem cartas (parece que já estou a ver o moche nas linhas da frente dos
concertos nesta parte “mais a abrir” da música).
 
“Run” e o segundo single
“The Sky is a Neighborhood” (mais uma vez, com um refrão poderoso para ser
ecoado em estádio), acabam por ser um bom exemplo do resto do nono trabalho dos
FF. A alternância entre baladas mais suaves, ritmos pop/rock e guitarras
melódicas, com riffs poderosos que vão do rock clássico ao hard rock. A
presença de figuras importantes, como Justin Timberlake, que faz os backing vocals no tema “Make it Right”, de
Paul McCartney na bateria de “Sunday Rain”, não traz nada de novo ao álbum a
não ser a influência clara dos Beattles, em temas como “The Sky is a
Neighborhood” ou ainda mais no “Happy Ever After (zero hour)”. A sonoridade do
quarteto de Liverpool está bem patente nos temas mais calmos do disco, quase em jeito de tributo de Grohl a uma das bandas mais emblemáticas da história do
rock. A presença da enigmática vocalista dos Kills, Alice Mosshart, é talvez a
mais pertinente em todo o álbum, com a sua voz a marcar presença forte no
refrão de “The Sky is a Neighborhood” e, mais discreta, no tema “La Dee Da”, um
tema mais pop rock para teenagers americanos.
 
Com a contratação de peso do produtor do ano,
Greg Kurstin, vencedor de três Grammy na colaboração com Adele no seu último
disco, “25”, os FF “sacam” um trabalho sólido, sem grandes falhas, mas também sem
grande virtuosismo ou novidade. Os fãs do rock e do grunge vão, sem dúvida, regozijar
com os temas mais poderosos, que alternam entre a calmia e o som mais pesado das guitarras, mas poderão ficar um pouco desiludidos com temas mais pop, com
menos corpo e garra, como são exemplo: “Make it right” ou “Arrows”.
 
No balanço final, o resultado é positivo e, apesar não trazer grandes novidades à discografia da banda, é sem dúvida um
trabalho para ser ouvido tanto numa corrida ao final do dia (garanto-vos que
alguns temas vos darão aquela energia extra de que precisam), como ao vivo,
local onde, definitivamente, toda a banda ganha uma nova aura e dimensão.
 
Ricardo Dinis 

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