Ideias até ao infinito

KW – Kurt Weill de Adriana Queiroz e as 6 perguntas que fizemos à cantora

Setembro 19, 2017
Adriana Queiroz promo espetáculo

Uma sala de teatro. As luzes apagam-se. As cortinas
ainda fechadas e começam a ouvir-se os primeiros acordes daquele que se viria a
revelar um concerto surpreendente.
Diante de nós uma orquestra única, um dos melhores
pianistas do país e uma voz que se ‘agiganta’, sempre que a música a isso
obriga, para logo depois fazer-se ouvir suave e delicada.
Foi assim que senti o espetáculo KW – Kurt Weill
de Adriana Queiroz
. Muitíssimo bem acompanhada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa e Francisco Sassetti ao piano, a (agora) cantora enche o palco,
aliás, toda a sala.
É impossível ficar indiferente a Adriana Queiroz, até mesmo com a
“barreira” da língua alemã, com que abre o espetáculo. Porém, a sua
interpretação é de tal forma cativante que nos agarra e nos leva consigo numa
viagem fabulosa pelo universo de Kurt
Weill
.
Ao ouvir Adriana Queiroz a cantar as primeiras músicas em alemão, só pensava para comigo: “Quero
muito ouvi-la cantar em francês”, ao mesmo tempo que a Rosarinho me chama e diz
baixinho: “Faz lembrar um bocadinho a Edith Piaf, não faz?” 😉
E faz mesmo. Pela forma como ‘agiganta’ a voz
sempre que a música assim o exige, como canta de forma meiga e delicada, e tudo
isto aliado a uma teatralidade única e um toque de humor que incute ao
espetáculo, de que o exemplo mais evidente são as trocas de figurino em pleno
palco.
Por falar em figurinos, a assinatura é do estilista
José António Tenente e, aqui para as
miúdas, assentaram na perfeição em cada uma das épocas retratadas no
espetáculo. 
Se eu adorei o
estilo
cabaret francês do vestido com que viajou pelo repertório na
língua de Piaf, já a Rosarinho ficou encantada com o
glamour da última peça que ilustra a época americana, um vestido
azul no estilo princesa.
KW – Kurt Weill de Adriana Queiroz foi
para nós uma (muito) agradável surpresa, com a artista a conquistar aqui duas
fãs, tanto mais que ainda tivemos a oportunidade para uma breve entrevista, que
aqui vos deixamos. Venham daí conhecer Adriana Queiroz!



Adriana Queiroz em palco a cantar Kurt Weill

Este espetáculo já foi apresentado ao público em
2014, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. O espetáculo atual sofreu alguma
evolução e porquê trazê-lo de novo a palco?
A ideia de o repor cresceu no final dos
agradecimentos da primeira versão. Não só me apercebi que não queria que o
espetáculo ficasse por ali, como me realizei que o KW tinha muito por
onde crescer. No dia a seguir, liguei logo ao Filipe Raposo (com quem
trabalhava há já 2 anos no espetáculo Tempo), pois, à medida que ia
interpretando aquele universo, ia realizando que o Filipe o habitaria com
mestria. O que veio a acontecer… e foram 3 anos a tentar pôr o projeto de pé
outra vez, com um lançamento em CD do trabalho Tempo e a digressão do mesmo –
que se espraiou por mais de um ano… e a vida com alguns acontecimentos
incontornáveis.
O que a fascina e inspira em Kurt Weill?
Apaixonei-me pelo trabalho e o mundo musical de
Weill quando comecei a conhecer o teatro ‘brechtiano’ (sim, porque em pequena,
para mim, o Alabama Song era um tema dos The Doors e o Speak low um standard de jazz; o Mack the Knife era uma canção tão
popular que achava que era mesmo de cariz popular… em pequena). O
entrosamento do mundo ‘weilliano’ na palavra de Brecht é tal, que nos faz
duvidar onde começou o trabalho de um e acabou o do outro. Depois veio o
fascínio pelo percurso deste homem fugitivo e refugiado uma vida inteira, que
soube sempre retirar o melhor de cada situação vivida e ainda nos retribuir
aquilo que apreendeu com uma obra de uma riqueza imortal.
Sente que existe alguma “ligação” entre
si e Kurt Weill? Afinal, perante os grandes desafios da vida ambos revelaram um
espírito resiliente?
Não posso deixar de sorrir com esta pergunta, pois
sempre que falo apaixonada dos recomeços do Weill e da sua perseverança alguém
me faz essa analogia. A resiliência, o não desistir do sonho, o recomeçar todos
os dias pronto a beber e a viver em prol de um amor maior, isso, reconheço nele
e em mim. A minha maior homenagem ao Kurt Weill é exatamente o nunca ter
desistido deste projeto ao longo destes 3 anos e foi, sem dúvida, o exemplo da
sua obstinação que me fez continuar em frente.

Adriana Queiroz

Sabemos que aos 17 anos foi para França à conquista
do sonho de ser bailarina. Que aprendizagens trouxe, “na bagagem”, e que hoje se
refletem no seu trabalho?
De França trouxe “na bagagem” mais ensinamentos
técnicos e menos 16 quilos, para começar a minha vida artística como Bailarina;
mas é da minha vida como Bailarina profissional que retiro toda a minha força
de trabalho, a capacidade de resistir, o não conhecer a expressão “não
consigo”, a disciplina, a entrega para lá da dor, a noção de que o
espectáculo é mais importante que tudo o resto… Acho que qualquer Bailarino
profissional se vai rever nestas frases e perceberá muito bem de que “barro” somos feitos. Devo toda a minha vida artística e a minha personalidade
resiliente ao facto de ter começado com a vertente mais exigente das artes
performativas.
A Adriana refere numa entrevista que os artistas
têm a obrigação “de ensinar as pessoas a chorar, a rir, a ligarem-se aos
sentidos primários”. Acha que as pessoas estão cada vez mais desligadas de
si? A arte poderá ser o caminho para a conexão com a essência de cada um?
Urge humanizarmo-nos. Estamos desligados dos nossos
“sentires” e à deriva entre mundos cada vez mais antagónicos. Desapareceram as
cores; ou é branco ou preto, quando se juntam o tom não vai para lá do cinza.
Continuo a ter a opinião de que, no Ensino e nas Artes, está o futuro e está
sobretudo o “reensinar” dos sentidos. Precisamos voltar a rir e a chorar por
prazer e por emoção. Temos de voltar a aprender a amar e a respeitarmo-nos e,
sobretudo, a pensar por nós mesmos. E isso só se consegue com um ser humano com
bases sólidas a nível educacional e artístico.

Adriana Queiroz em palco canta Kurt Weill

Ter os figurinos, neste caso concreto do José
António Tenente, faz sentido nos espetáculos da Adriana? A música caminha lado
a lado com uma vertente mais cénica?
Faz sempre sentido ter a meu lado pessoas com quem
consiga partilhar sonhos, vida e emoções. Pessoas que como o Zé estão prontas a
ir mais fundo numa pesquisa, onde o trabalho nunca acaba, o diálogo faz-se, às
vezes, só com um sorriso ou um olhar. E depois o lado humano do José António
Tenente… Ao saber que queria vestir 3 décadas diferentes, e mudar de ambiente
e roupagem em cena, depois de tantos trabalhos em que nos cruzámos no Ballet
Gulbenkian, foi-me quase evidente que o Zé era a pessoa indicada para este
projeto. Fica-me agora a certeza de que o Zé é a pessoa que gostarei que me
acompanhe em todos os projetos, pois, como eu, ele adora mergulhar no mundo dos
outros e habitá-lo sem nunca desvirtuar o propósito primeiro.
Respondendo à segunda parte da pergunta: Sim, os
meus espetáculos vão andar sempre lado a lado com um fio dramatúrgico e um lado
estético depurado que me caracteriza, mas que tem sempre um impacto grande no
resultado visual e final. Farei sempre viagens musicais através de autores,
ideias ou mensagens. Sim, a minha música será sempre muito visual cenicamente e
“palavrosa”… como já o tenho dito, não estou à procura de uma
sonoridade nova e sim de transmitir as emoções e os mundos dessa música,
através das suas poesias, textos ou mensagens.

Susana
Figueira & Rosarinho



Agradecimentos: Uguru 

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