Ideias à solta

No Ouvido e na Tela, by Ricardo Dinis

Setembro 14, 2017
Depois de alguns meses de ausência, o nosso cronista Ricardo Dinis está de volta com uma nova crónica – No Ouvido e na Tela

A sério? Sim! Para trás ficaram os anos 90 e partir de hoje o Ricardo vai dedicar-se às novidades musicais e cinematográficas! As miúdas estão felizes porque estes eram dois temas “coxos” aqui pelo blog. Até parecia mal, uma vez que nós somos doidas por música e por um bom filme na tela ou na caixinha mágica. 
Mas chega de conversa! Eu vou ali preparar mais um post e deixo-vos na companhia do Ricardo 🙂

The War on
Drugs – “A Deeper Understanding”

O quarto álbum da banda de Adam Granduciel, transporta o
colectivo de Filadélfia para um novo patamar, após o já aclamado pela crítica
“Lost in the Dream”, de 2014, ter
trazido a banda para as luzes da ribalta, com a ocupação dos lugares cimeiros,
nas listas dos melhores do ano, nas publicações da especialidade. Após a saída
prematura de Kurt Vile, em 2008 (co-fundador com Granduciel), logo depois do
primeiro álbum, “Wagonwheel Blues”, poder-se-ia pensar que a banda estaria
condenada a uma curta carreira.

Ao invés disso, Granduciel e companhia continuaram a
trilhar o seu caminho e depois de um terceiro álbum mais instrospectivo, que
reflecte uma fase mais depressiva do seu frontman,
os The War on Drugs conseguem lançar um álbum cheio de vitalidade, onde sonoridades
revisitadas de mestres do rock  dos anos
80’s, como Bruce Springsteen ou Dire Straits, estão bem patentes, mas
adornadas com um toque modernista, bem característico do indie rock e da synth
pop
contemporâneos.

Neste novo trabalho da banda, podemos encontrar um excelente
equilíbrio melódico ao longo das faixas, onde a voz rouca e grave de Granduciel
alla Bob Dylan, se conjuga na
perfeição com potentes solos de guitarra, protagonizados pelo mesmo, como são
excelentes exemplos: “Holding On” ou “Thinking of a Place”, dois singles de “A
Deeper Understanding”. Mantendo-se na senda do que tinham habituado os seus fãs
desde 2008, os The War on Drugs, continuam a trazer-nos um som que, com raízes
no rock clássico, consegue introduzir um revivalismo melancólico, que os torna
numa das referências actuais do indie rock. Seja numa viagem de carro ao pôr do
sol, ou num acordar demorado e preguiçoso, o último albúm da banda americana merece
ser apreciado do início ao fim, como se de um prato de chef se tratasse.

Esperemos por um
regresso aos palcos nacionais, depois de passagens
acaloradas pelo NOS Alive em  2013 e pelo
Vodafone Paredes de Coura em 2014.


“Dunkirk” – C. Nolan

Esta aventura por novos ambientes do cineasta britânico, em
que pela primeira vez na sua carreira retrata factos verídicos, revela-se
bastante profícua, saindo dela, o realizador de “Inception” e “Interstellar”, com distinção.

Apesar de ser um filme de guerra (retrata a fuga e evacuação
de mais de 300 mil aliados da praia de Dunkirk, após terem sido
completamente encurralados pelos alemães), o modo como a lente de Nolan o
observa é bastante diferente dos comuns filmes deste genéro. Este é mais uma
obra da sobrevivência humana em situações-limite do que um retrato de guerra per si. A tradição de narrativas não
lineares a que Nolan nos habituou e que, diga-se de passagem, o faz com elevada
mestria, repete-se neste “Dunkirk”. O argumento avança tripartido entre as histórias
de Farrier (Tom Hardy), o piloto dos aliados que tenta sobreviver no cockpit seu caça, contra os ataques
alemães, em terra, acompanhando as tentativas de fuga através dos navios aliados de
Tommy (Fionn Whitehead), Gibson (Aneurin
Barnard) e, mais tarde, Alex (Harry Styles) e no mar, seguindo a tentativa
estóica de Mr. Dawson (brilhante Mark Rylance) no seu barco, um dos civis em
missão de resgate, acompanhado pelo filho Peter (Tom Glynn-Carney) e o seu
amigo George (Barry Keoghan).

O grande destaque do filme está na sua capacidade
de captar de forma singular a atenção do espectador, transportando-o para a
acção, como se um soldado se tratasse, a escapar daquela encruzilhada criada
pelo exército alemão. O envolvimento com o grande ecrã é enorme, factor conseguido
pela harmonia entre os close ups, por
exemplo dentro do avião de T. Hardy, e a imensa paisagem da praia e do mar repleta
de soldados a tentar encontrar um lugar de volta à pátria. Todas as explosões,
avanços e paragens catapultam-nos para o cerne da acção, encaixando-se na
perfeição na evolução da trama. Este factor é coadjuvado pela magnífica banda
sonora de Hans Zimmer, em que os violinos e os crescendos sonoros se fundem com
os bombardeamentos das tropas alemãs, colando-nos ao ecrã. Com Nolan, tudo é pensado,
nada é deixado ao acaso.

É um filme de poucos diálogos, em que a acção, os
gestos e expressões de sofrimento dos personagens nos trasmitem tudo o que
precisamos saber, sem ser necessária a informação cliché de onde veio cada um e quais as suas ambições futuras, tão
usuais neste género, em que a redenção e o heroísmo patriótico são temas
recorrentes. No que concerne ao retrato das texturas, cores e sons da guerra, “Dunkirk” roça a perfeição.

Aquilo menos bem conseguido no filme de Nolan,
será o enquadramento vago deste episódio em toda a II Guerra Mundial. Ficamos
sem perceber qual o seu papel em toda a guerra, como se chegou até aqui e, essencialmente, pelo facto do resgate ter sido conseguido pelo trabalho
concertado de tropas britânicas, francesas e magrebinas, quando apenas é
destacado o papel britânico. O pedido de Winston Churchil para todos os civis
que tivessem um barco encetarem um resgate épico dos seus compatriotas,
revela-se uma imagem comovente na parte final do filme, onde mais uma vez o
realizador incide em temas Spielbergianos, como a família, os valores e a quase
canonização dos protagonistas. 

Nada disto retira mérito à mais recente obra de
Nolan, que nos transporta do primeiro ao último minuto para tela, onde, como
espectadores, vivemos de perto o drama dos milhares de soldados que
angustiadamente tentam fugir de Dunkirk e lutar pela sua sobrevivência. 

Ricardo Dinis

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