Ideias à solta

O Meu Admirável Mundo da Escrita, by Lúcia José

Maio 31, 2017


“Um amor no Alentejo”

— Cremilde, oh Cremilde! Levanta-te mulher que o
sol já vai alto!

António chamava pela mulher antes de levar as
cabras para o monte a pastar. Já eram 7h00 e, a essa hora, já era hábito estar
de abalada. Tinha sido toda uma vida de trabalho, mas na verdade, não conheciam
outra realidade. A sua maior riqueza eram os campos cheios de trigo a perder de
vista, e as oliveiras. E que belo azeite que se produzia! Não havia nada melhor
para molhar um pedaço de pão e acompanhar uma mão cheia de azeitonas!

Todos os dias de manhã a mulher lhe preparava o
farnel para levar, um naco de pão de trigo, feito no forno a lenha, e chouriço
ou um pedaço de queijo, um verdadeiro manjar dos deuses! E, claro, não podia
faltar a pinga, um belo vinho tinto alentejano, cor rubi e textura aveludada! E
que bem que escorregava!

Não eram ricos, mas eram felizes, tinham o mais
importante, o amor nascido da companhia e cumplicidade de uma vida inteira!

Conheciam-se desde catraios, ela de longas
tranças nos cabelos a fazer lembrar a cor dourada das searas e ele já com a
cabeça cheia de sonhos, e o maior de todos era catrapiscar aquela moçoila! Brincavam
muitas vezes por entre as oliveiras, às escondidas ou à apanhada, depois, já
cansados, iam até à beira do rio e deitavam-se debaixo de um grande sobreiro
que por lá havia. Na hora do calor era a sesta que se impunha e tudo parava, o
silêncio reinava, apenas interrompido pelo chilrear dos pássaros.

Anos mais tarde, António queria cortejá-la. E
como tinha sido difícil conquistar-lhe o coração! Ela dizia que tinha que
ajudar a família nos campos e nos tempos livres tinha os seus bordados, não
tinha tempo para namoros! António sabia que ela gostava dele, mas, casmurra, não
queria admitir!

Um dia, enquanto ela passeava com o pai, de braço
dado, ele aproximou-se e passou-lhe uma pequena rasteira, sorrindo… Haviam de
ter visto a cara dela! Passou por todas as cores do arco-íris, quando o pai lhe
perguntou quem era aquele rapazinho que tinha passado por eles. Claro que deu
em namoro, e depois, em casamento!

Com alguma mágoa por Deus não os ter abençoado
com nenhum filho, lá continuaram fazendo a sua vida, dia após dia, ano após ano.

Os cabelos foram ficando brancos e as rugas tornaram-se
testemunhas do passar do tempo, porém, aos olhos de António, Cremilde continuava
com o mesmo encanto dos tempos de menina…

António, estranhando a mulher não se levantar,
foi ter com ela ao quarto.

— Cremilde, oh Cremilde, então mulher, já são
horas!

Ela não respondeu…

Aproximou-se da cama e abanou-a ao de leve, ao
tocar-lhe sentiu a pele fria sob a camisa de dormir. No peito, um aperto no
coração! Pegou-lhe na mão sentindo-lhe o pulso. Nada!

Uma lágrima rolou-lhe pela face curtida pelo
sol.

— Cremilde, oh Cremilde, como posso eu viver sem
ti a ‘mê’ lado? Disse baixinho…

Despiu-se e enroscou-se por baixo das mantas
junto ao corpo falecido da mulher. Fechando os olhos com muita força, desejou
intensamente também ele partir depressa ao encontro da sua Cremilde, o seu amor
de sempre…

Lúcia José

Nota da autora:
Conto participante na 1a Edição do prémio
literário “Do mosto à palavra” na categoria de texto em prosa e que irá
ser publicado brevemente pela Chiado Editora.
E vocês, que vivências e/ou recordações têm desta
região do nosso país? Partilhem, comentem, deixem as vossas opiniões.

Nota sobre o artista:
É para mim uma honra e uma alegria enorme poder contar com as
aguarelas do meu amigo José Leal na ilustração dos meus textos aqui no ‘blog’,
como é fácil perceber pelo seu admirável currículum! 
De nome artístico Joll, desde pequeno que tem o
gosto pelo desenho e pela arte. Lembra-se de ter recebido a sua primeira caixa de aguarelas aos
4 anos de idade e, desde então, nunca mais parou. Teve formação na Escola de
Artes Decorativas, o que foi determinante para continuar apaixonado pela
aguarela. 
Actualmente é membro da USKP – Urban
Sketchers Portugal
, e membro internacional da IWS 
 International Watercolor
Society
. Recentemente, foi seleccionado para representar Portugal no 1.o
Festival Internacional IWS
em Portugal, entre 150 aguarelistas internacionais, e
em Agosto irá representar Portugal no Festival 
Internacional de Aguarela em Bratislava
, Eslováquia.
Este ano, expôs individualmente no Banco de
Portugal e tem convites para Espanha, Turquia e Índia. Como
ilustrador, participa em acções de sensibilização e divulgação, para instituições
de apoio a animais, em caracter pro bono.

Vejam os seus trabalhos em:
https://paletaderua.blogspot.pt/
https://www.facebook.com/jose.leal.jollpaintings

https://www.facebook.com/jollpaintings/

  • Reply
    Anónimo
    Maio 31, 2017 at 3:42 pm

    narra bem o sonho do amor eterno que todos nos sonhamos, mas num tempo onde a vida era vivida com muita dureza mas na brisa do vento

  • Reply
    Lúcia José
    Junho 1, 2017 at 6:44 am

    Obrigada pelo comentário, é bem verdade que a vida nos tempos de antigamente era mais dura especialmente para quem vivia exclusivamente do cultivo das terras ou do pastoreio. Claro que também existiam outras coisas que entretanto caíram em desuso, como é o caso dos serões à lareira onde se contavam várias histórias que passavam de geração em geração! Tradições bonitas que ficam na memória…

  • Reply
    Catarina Brandão
    Junho 23, 2017 at 9:49 pm

    Amiga adorei o texto,até fiquei comovida💜espero ser dos primeiros de muitos textos teus que vou ler,beijinhos😘

  • Reply
    Lúcia José
    Junho 26, 2017 at 12:40 pm

    Querida Catarina, obrigada pelo teu carinho e pelas tuas palavras. Tu estás no meu coração e serei sempre uma companhia, nós momentos difíceis mas também nós momentos mais felizes, pois essa é o verdadeiro significado de uma amizade! 💋

  • Reply
    Júlio Silva
    Setembro 19, 2017 at 1:24 pm

    Um lindo relato de amor eterno e verdadeiro que cada vez é mais difícil de encontrar. Um texto que chega a ser comovente em especial para quem um romãntico(a). Parabéns Lúcia

  • Reply
    Lúcia José
    Setembro 29, 2017 at 3:54 am

    Querido amigo Júlio,
    Obrigada por me acompanhares nesta minha incursão pelo mundo da escrita.
    É para mim um privilégio ler as tuas palavras e saber das emoções que te suscitam as minhas…
    Tal como na amizade, é esta troca que fomenta as coisas boas da vida.
    Grata pelo teu carinho e presença assídua por aqui.

  • Reply
    Júlio Silva
    Setembro 29, 2017 at 9:00 am

    Excelente texto muito preciso é concreto no que deve ser o amor entre duas pessoas. És uma pessoa realmente fantástica. Obrigado por seres minha amiga. 😘
    Bom a dr

  • Reply
    Lúcia José
    Setembro 29, 2017 at 6:11 pm

    Querido amigo, mais uma vez, grata pelo teu comentário e amizade. Beijinhos.

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