Ideias à solta

Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira

Janeiro 21, 2017
Espero que quando me conheceres continues a gostar de mim.
 
A última cadeira da manhã atrasou-o. Estava
inquieto por estar tão atrás na fila da cantina. Não estava com particular
apetite mas esfomeado do olhar dela. Andava absorvido pelo castanho vivo
profundo e pelas pestanas, densas, imensas que lhe trajavam o rosto. Sabia que
andava em direito e mais nada. À parte disso andava sempre rodeada de outros
colegas, mais rapazes que raparigas, o que lhe tirava fôlego para se atirar do
penhasco. Seria um mergulho a pique, dizer-lhe olá, comentar uma coisa qualquer
sobre o tempo do momento e ficar pendurado pelo desinteresse que estava certo,
ela lhe atiraria. 
 
Naquele dia almoçou sozinho sem a ver. A noite foi mais dura do
que as outras. Andou inquieto de sonho para sonho, todos difíceis pela ausência
dela. Acordou decidido a preencher o espaço das ideias com o vazio do esforço
físico. Pelas sete e meia, com a temperatura já nos 16 graus de um maio tímido,
lançou-se de patins à ciclovia junto à universidade. Ia embalado no equilíbrio
dos braços junto ao corpo rasteiro para ganhar velocidade, e nem a viu. Do
outro lado da estrada estavam os tais olhos castanhos num abraço imenso a Sara,
sete anos de alegria e sorriso fácil, que entrava apressada no autocarro da
escola, a despedir-se da mãe por detrás do vidro na companhia dos outros
traquinas. À segunda passagem, os patins já não encontraram ninguém. Marta
apressara-se a entrar para se preparar para as aulas, agora que a pequena Sara
estava despachada para o primeiro embate com a tabuada dos dois.
 
Renato também se apressou para chegar a horas a
Anatomia II para se concentrar nos ossos do pé. Uma dor de cabeça para o rapaz
que só se lembrava dos olhos e das pestanas dela. Com a anatomia assim trocada
correram duas horas a pensar na fila da cantina, onde chegou já com algum
atraso. Marta já lá estava a recolher a sopa e o empadão de atum com salada.
Viu-a a procurar a gelatina do costume, mas já não havia. Quando chegou à
frente, Renato optou pelo peixe no forno e acompanhou com maçã cozida. Quando o
empregado se aproximou para trocar o tabuleiro do empadão, Renato nem lhe deu
tempo para o pousar, questionando logo se já não havia gelatina. Os bigodes do
outro pareciam surdos à questão, concentrado que estava a encaixar o empadão na
bacia de água quente para não se queimar. Quando voltou à linha da frente, já
Renato estava a pagar, o homem atirou-lhe uma gelatina de morango.
Surpreendido, Renato agradeceu e logo estremeceu. Perguntara pela gelatina por
impulso, para ter um ponto de contato com os olhos dela. Mas agora que a
gelatina tremia à sua frente no caminho para uma mesa de almoço ainda por
sortear, sentiu-se ridiculamente pequeno, incapaz de avançar com a segunda
parte do processo. 
 
Sentou-se numa mesa próximo dela, controlando o avanço do
almoço. Quando percebeu que Marta se preparava para as últimas garfadas, pegou
na gelatina e arrastou-se a medo até ela. Olá, disse. Sem que ela respondesse,
continuou. Reparei que não tiraste sobremesa. Posso oferecer-te esta gelatina?
Ela sorriu. Podes, gelatina de morango é a minha favorita. Deslumbrado com o
sorriso dela, Renato sentou-se na conversa da gelatina, de como o empregado lha
tinha dado sem lhe dirigir uma palavra, de como a gelatina faz bem aos ossos,
os mesmos do pé que ele tem tanta dificuldade em distinguir. Ficaram nisto uma
hora e meia. Por volta das quatro da tarde, Marta desculpou-se com um trabalho
e seguiu apressada para ir buscar a filha. Trocaram números de telefone, não
fosse preciso Renato avisá-la quando houvesse gelatina na Cantina. 
 
Renato
passou o resto do dia a pensar naquela fuga à pressa imaginando obviamente um
encontro com o namorado. Estava a queimar de vontade de lhe ligar. Mas dizer o
quê? A que pretexto? Estás a sonhar Renato, pensou. Quando é que ela vai olhar
para ti?, rematou.
 
Pelas nove da noite, pegou no telefone e começou a
ensaiar uma mensagem. Olá. Tudo bem? Estava a pensar se poderíamos tomar um
café, ou uma gelatina?
 
Que ridículo, pensou. Correu a apagar o que
escrevera e pelo caminho ouviu o sinal de envio de mensagem que seguira por
engano. Angustiado foi confirmar o que seguira na mensagem. Menos mal, pensou,
seguira apenas o Olá. Quando logo de seguida o telefone estremeceu com a
entrada de uma mensagem, Renato suspendeu a respiração. Na verdade desejou
estar morto para não ter de se confrontar com a resposta. A medo pegou no
telemóvel e deparou-se surpreendido com um Olá. Tudo bem? Com os níveis de
ansiedade e adrenalina em modo de semi-trombose, Renato iniciou uma resposta. A
essa seguiu-se outra e até às duas da manhã trocaram para cima de 50 mensagens.
Falaram imenso e no outro dia encontraram-se na cantina e almoçaram juntos. Renato
falou-lhe de sonhos, da infância dos medos pequenos e das brincadeiras com a
avó em miúdo. Marta também lhe falou de sonhos, mas escondeu Sara, força
inquestionável de amor que surgira inesperada ainda durante o tempo de liceu.
 
Nestes encontros noturnos, Renato cedeu rapidamente
e à quarta noite de conversa, protegidos pela distância do telemóvel, não
resistiu à doçura de lhe elogiar o olhar. Ela percebeu o avanço. Quando se
despediram nessa noite, Marta virou-se ao seu diário como todas as noites para
escrever. Começou pela data, esquecendo a hora tardia. Desenhou o nome de
Renato e envolveu nele um coração pequenino, e escreveu, Espero que quando me
conheceres continues a gostar de mim.
 
Ricardo Caldeira

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