Ideias para a agenda

Descobrir “O Poder dos Adolescentes” de Rui Melo

Janeiro 10, 2017
Há um mês atrás, por incompatibilidade de agenda (sim, pois estas miúdas andam sempre numa roda-viva) e com muita pena nossa, faltámos ao lançamento do livro “O Poder dos Adolescentes”, de Rui Melo, que decorreu no Palácio Anjos no Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés. Ainda assim, e como nós adoramos conhecer pessoas com talentos e que não desistem de conquistar os seus sonhos, quisemos conhecer melhor o autor e este seu desejo de escrever sobre e para os adolescentes. Preparem-se para conhecer de perto o “Poder” de Rui Melo.

Fale-nos um pouco do Rui
Melo, o escritor. Como surgiu esta vontade de escrever um livro?

Desde sempre. Escrevo desde os meus 11 anos e apesar de ter sido sempre à
volta da poesia e da prosa, nunca tive a coragem de publicar. Quer dizer, aqui
e ali uns artigos para revistas, mas nunca achei que o que escrevia tinha
qualidade ou conteúdo que interessasse a alguém.
Agora acho que estive
sempre errado. A PARTILHA é a essência da escrita e não outra coisa qualquer.
Partilha-se e ponto. No entanto,
concordo com a necessária responsabilidade em garantir que o que se escreve tem
qualidade. Este é, talvez, o limite mínimo dessa atitude de partilha. O grande
impulso foi claramente altruísta. Um livro que pudesse habitar nas suas
mochilas, dias a fio, todo coçado de tanto uso, é uma ideia que ainda hoje me
alimenta. O Livro acabou por ver a luz do dia pela qualidade e interesse que
despertou nos vários testers a quem
dei a ler alguns capítulos.


Rui Melo, o escritor



O que o motivou a “entrar” no universo dos adolescentes? É o seu público-alvo, ou este livro também
pode/deve ser lido por pais e educadores?

Sempre convivi bem com os mais velhos e com os mais novos, ou seja, com
gerações acima e abaixo da minha. Sempre tive um interesse genuíno em sentir as
diferentes vivências a acontecerem no mesmo Tempo. Claro que com três filhas o
apetite para escrever para Eles começou a tornar-se enorme. Existe um filme,
que vi há muitos anos, chamado “My Life”. Conta a história de um pai que vive o
drama de ter os dias contados e a mulher grávida de um rapaz, seu filho. O que
me fascinou nesta história foi a Escolha que o pai fez em usar os últimos meses
da sua vida, documentando a sua personalidade, as suas opções de vida, aquilo
em que acreditava. De certa forma, uma passagem de legado post mortem. Verti lágrimas quando o pai faz um vídeo para o filho,
sobre a forma correta de fazer a barba. Custasse o que custasse, este pai
queria estar presente no crescimento do filho. Talvez eu também tenha um pouco
disso na motivação do livro.


Sempre defendi que “educar é conduzir sem ser visto”… e no momento em que
Eles notam que queremos que vão para a esquerda, desviam para a direita. O
problema não está nesta “determinação”. É até saudável! O problema é que acabam
por magoar-se. Os pais, mesmo com alguma falta de jeito, querem o melhor para
os seus filhos. E, mesmo nessa falta de jeito, acertam a maior parte das vezes.
Ora, com esta aversão a serem “conduzidos” vão acabar por decidir asneira atrás
de asneira.


Apesar deste possível mergulho dos adultos no Livro, continuo a considerar
que o público-alvo do livro são mesmo os adolescentes. Mais importante do que
os adultos saberem como conduzir, é mostrar aos adolescentes que podem pensar
por eles. Treinarem para ser melhores seres humanos antes da idade/vida/experiências
chegarem, normalmente ao fim de muito tempo. Os adultos normalmente têm esta
expressão “se eu, com a vossa idade, soubesse o que sei hoje…”. Não digo que
tento evitar as experiências da vida, antes pelo contrário. Com este livro
tento, isso sim, dar-lhes ferramentas que Lhes permitam tirar maior partido
dessas experiências.


Claro que os leitores adultos conseguem aproveitar muito do livro. Não no
sentido de ficarem a educar melhor, mas no sentido de entenderem a química de
uma geração que não deixa de ser difícil e de provocar “muitos estragos” em quem
os rodeia.


António, o ilustrador



Na página de Facebook do
livro, podemos ler “Os Adolescentes são a Geração Nómada”. Quer falar-nos um
pouco sobre esta ideia?

(risos) Essa foi uma ideia que surgiu das muitas conversas que tive com o
António, o ilustrador. Ele tem 22 anos e, pelo caminho, apesar do livro já
estar, à altura, pronto, foi-me mostrando algumas formas diferentes de ver o
meu próprio livro. Foi no meio dessas trocas de ideias que surgiu o “rótulo” Geração Nómada. Todos passamos pela idade da adolescência. As gerações, hoje em
dia, dizem, contam-se de 7 em 7 anos. São gerações com muito em comum que vão
avançando no tempo. Como se se tratasse do jogo da cadeira, mas, neste caso,
ninguém volta à cadeira onde se sentou. A geração que agora está sentada na
cadeira da adolescência é muito forte. Muito bem apetrechada. Com uma visão
muito mais global, desempoeirada. Muito mais completa do que quando eu me
sentei na mesma cadeira. Claro que nem tudo são rosas… os desafios para Eles
são enormes. Mais do que foram para a minha geração. A exigência dos pais e da
sociedade sobe a cada geração que passa.


Mas porquê nómada…
Nómada por várias razões: Porque agora começam cedo a viajar e a ter sede
de viajar; por serem desinibidos ao olhar para este mundo global; por admitirem
trabalhar e constituir família em qualquer parte do mundo; mas, acima de tudo,
por conseguirem estar a pensar em vários cenários ao mesmo tempo, numa
inquietação permanente, que ajudados pela tecnologia fá-los “viajar” constantemente sem terem de sair do lugar.


Depois de “O Poder dos Adolescentes”, o Rui sente “Poder” para continuar a escrever?
Penso que sim. Sempre atirei o coração para a frente e corri atrás dele.
Por isso é que o Poder do Desejo é o meu poder… é o poder com o qual mais me
identifico, apesar de ainda estar a afinar o uso dos outros poderes (risos)… É
um exercício bastante engraçado e fácil de se fazer. Eu, como pai, identifiquei
claramente os poderes mais vincados em cada uma das minhas três filhas. Convido
todos os leitores a escolherem o vosso… Já tenho alguns temas na calha. Sempre
apontei as ideias que vou tendo quando bato com a cabeça (risos)… e por isso,
para mim, até é fácil avançar para outro livro. O tempo terá de estar do meu
lado. Sem tempo – não há dedicação – não há produção – não há qualidade. Este
livro levou-me 5 anos a escrever, porque as interrupções por falta de tempo
foram sempre muitas. Afinal de contas, não sou um escritor profissional.


“O Poder dos Adolescentes”, o livro



As suas preferências
enquanto leitor influenciaram de alguma forma a sua escrita? (autores de
referência, temáticas…)

Não, não é bem por aí! Existem, com certeza, vários géneros de
escritores que aprecio, mas os que mais me impressionam, escrevem livros que
são arrancados de dentro das suas vidas. São os que não escrevem a metro. Claro
que tudo o que li e vivi com esses livros influenciou-me, mas mais importante
foi fazer o que eu chamo o “caminho
de humildade”… Eu explico… quando acabamos de aterrar num mundo que não é o
nosso, ou seja, escrever e tornar o que escrevemos público, temos de aceitar a
possibilidade de não estarmos a “ver bem a coisa”. Com o livro a finalizar, comecei
por tentar descobrir alguma escrita sobre adolescentes e confrontar o meu livro
com a concorrência, mas o que encontrei não desenvolvia esta abordagem. Depois,
provoquei o encontro com a Mónica Menezes, que já escreveu um livro para Eles e
falámos várias vezes sobre o desafio de escrever em Portugal e ainda por cima para
adolescentes. Foram muito interessante as nossas tertúlias.


A verdade é que sempre li muito, mas as minhas influências sempre estiveram
do lado da vida, vivida. Lembro-me de quando trabalhava em Lisboa e ia de
transportes, o meu maior passatempo era observar as pessoas. Dar-lhes vidas
inventadas, com sentimentos mais ou menos aderentes. Por outro lado, e esta é
quase óbvia para quem me conhece bem, um altruísmo em ser útil para quem
precisa. Não que os adolescentes sejam a parte fraca desta história, antes pelo
contrário, porque são muito importantes para o futuro das nações. O que Eles
sentem num par de horas, não sentem os adultos numa semana. Neles existe uma
contradição de base de que eu gosto muito… vivem freneticamente os dias, como
se não houvesse amanhã, tomando ao mesmo tempo os riscos de quem é imortal. Ora
isto é uma delícia, mas ao mesmo tempo perigoso. Talvez a razão para se
sentirem tantas vezes perdidos e, assim, tantas vezes fracos. A verdade é que,
entre filhos únicos ou pais divorciados ou até mesmo pais sem jeito nenhum para
educar, os cenários sempre existiram na minha cabeça, suficientemente fortes,
para que eu quisesse ajudar de alguma forma através de um livro.


O lançamento

 

Deparou-se com grandes
dificuldades/obstáculos para publicar o livro?
Sim, bastantes. Penso que as Editoras já não funcionam como nós ainda as
imaginamos. Num livro em que as ilustrações têm o seu espaço, a sua força,
enviar um pdf de texto corrido não despertou grande interesse. Decidi mudar de
estratégia: Porque não montar o livro todo, numa edição de autor, e depois, já
com um produto final palpável, fazer-me à estrada e ver o que acontece. Estou
agora nesta fase… já tenho uma editora interessada e espero conseguir o
interesse de outras. Quero decidir pela que possa garantir que o livro chegue
ao maior número de adolescentes possível.


Pelo que pudemos perceber
pelas mensagens que vão sendo deixadas na página de Facebook do livro, quem já
leu “O Poder dos Adolescentes”
 gostou bastante. Uma palavra para quem ainda não
leu…
Talvez o mais acertado seja dizer que se trata de uma viagem ao centro de
nós. Somos seres complexos, completos e maravilhosos… só precisamos de algumas
pistas para começarmos a viver mais as coisas e isso… é urgente.
A miúdas do Armazém desejam o maior dos sucessos ao livro e ao seu autor!




Nota: Fotos gentilmente cedidas pelo autor Rui Melo

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