Ideias à solta

A sério? Isto foi nos anos 90?, by Ricardo Dinis

Dezembro 23, 2016
Quem esteja minimamente atento a estas
crónicas, facilmente perceberá que elas se baseiam em muito do que é a chamada
cultura pop. Nunca tive a pretensão
que fosse de outra forma. O propósito desta aventura é precisamente reflectir
de forma descontraída sobre algumas das grandes diferenças entre a década de 90
e a actual, separadas por meros 20 anos, um número infinitamente microscópico quando
comparado com os 200 mil de anos que tem a espécie humana. Daí que, se esperam
profundas análises ideológicas, sociais, económicas ou políticas, entre as
quais, também existem obviamente, grandes diferenças, deverão desde já investir
o vosso tempo noutras leituras, noutros fóruns e espaços onde estará muito bem
mais documentada a evolução desde os anos 90 até aos dias de hoje.
 
Quero também ressalvar que a perspectiva
saudosista com que pauto estas crónicas, não tem a ver com o facto de
“antigamente ser melhor do que agora”, ou estas memórias se devam apenas a
saudades da infância e adolescência, alturas em que, como as responsabilidades
da vida adulta praticamente não existiam, tudo parecia mais fácil. Têm apenas a
ver com uma observação das mudanças dos tempos, com o que de melhor e pior isso
nos trouxe e obviamente temos hoje coisas que eram impensáveis há 20 anos atrás
e, não tenho qualquer dúvida: as nossas vidas são hoje em dia bem mais fáceis.
“Colocados os pontos nos is”, o tema deste
post será outro pelo qual também
nutro grande interesse: Desporto. Poder-se-ia pensar que num espaço temporal
tão curto, este item tão presente na nossa sociedade pouco teria mudado, mas a
verdade é que isso aconteceu, seja pela influência das modas,  seja pela forma como o vemos ou por factores
económicos, a verdade é que isso aconteceu. Se calhar foi por uma miscelânea de
todos estes factores. 
Concordam? Ora venham comigo e
acompanhem-me nesta pseudo reflexão!


Dois factores dos quais já falei
anteriormente e que estão intrínsecamente ligados, contribuíram decisivamente
para a forma como vemos o desporto, pelo menos em Portugal: a internet e a
televisão.
 
Quem viveu a sua adolescência nos anos 90
facilmente se lembrará de os domingos serem dedicados em grande parte a ver
desporto em família. Todos se recordarão da NBA ou da Fórmula 1 transmitidos
pela RTP. Eram momentos que guardo com enorme nostalgia, pois uniam-nos à volta
da TV para ver os duelos entre o Ayrton Senna e o Alain Prost, para saber quem
levaria a melhor, por exemplo, no clássico Grande Prémio do Mónaco. Não sei se
a vocês vos acontecia, mas depois dos magníficos repastos de domingo ao almoço,
o meu pai ou um dos meus tios adormecia sempre no sofá, MAS, a televisão nunca
poderia sair da bendita fórmula 1! Eles diziam-se grandes aficcionados deste
desporto, apesar de invariavelmente adormecerem sempre, no máximo, à 3ª volta
da prova. A verdade é que se alguém mudasse de canal, acordavam imediatamente,
reclamando: “Eu estava a ver a fórmula 1”, quando todos ouviam o leve ressonar
de quem dorme sentado e com o traseiro enterrado na almofada do sofá. Não sei
se era o ruído dos carros que embalava o sono, ou o estomâgo cheio de cozido à
portuguesa, mas a verdade é que mesmo deixando-se embalar, nas voltas finais acordavam
espontâneamente para ver o fim da corrida. Foi um mistério que nunca desvendei…
 
Outro desporto do qual sou enorme fã é o basket. A NBA era outro dos clássicos do
fim de semana, fosse a rubrica NBA Action ao sábado ou o jogo de domingo. Nesta
época todos, até a minha mãe, acho eu, sabiam quem era Michael Jordan e os
Chicago Bulls e as enormes rivalidades entre estes e os Detroit Pistons dos bad boys, os Portland Trail Blazers dos
incomparáveis Clyde Drexler e Terry Porter, os Utah Jazz, da dupla maravilha
John Stockton e Karl Malone, dos LA Lakers de Magic Johnson ou os Boston
Celtics, do genial Larry Bird. Dos mais velhos aos mais novos, todos seguiam
com enorme interesse os jogos, conheciam equipas e jogadores e exaltavam com as
grandes jogadas comentadas pelo saudoso Prof. João Coutinho e o verdadeiro guru
da modalidade, Carlos Barroca.
 
Os Grand Slams de ténis, que se bem me
lembro eram transmitidos pela RTP2, preenchiam também muitos períodos
desportivos, com duelos também eles clássicos e históricos entre os ícones da
década, tais como: Sampras, Agassi, Boris Becker, Stefan Edberg, Sergi Bruguera
ou Michael Chang.
 
Além da cultura desportiva ser bastante
maior na altura, o convívio social, a interacção entre as pessoas à volta do
desporto era também muito maior. Reparem que chegámos até aqui sem falar do
desporto rei, o inevitável futebol. Não perdi muito tempo com ele, porque já na
altura era e continua a ser o que mais paixões e infelizmente também ódios
movimenta, entre as grandes massas. Os exemplos que referi eram desporto na
verdadeira acepção da palavra: competição, disputa, superar limites, dedicação,
rivalidade, mas sempre com enorme fair
play
. Víamos desporto em família, pelo gozo deste em si e não por ser o
nosso clube do coração que estava em jogo.
 
Inicialmente adverti para o facto de,
provavelmente, o tema desporto ser neste post
algo indirecto, pois todos os desportos que referi continuam a existir e a ter
milhões de fãs. A grande diferença prende-se na minha opinião, com factores
económicos e de alargamento do espectro de opções. Senão vejamos: hoje em dia o
grande canal de desporto é pago, a Sportv, como é do conhecimento comum. Além
disso, temos na internet inúmeros canais de streaming
em que podemos escolher o desporto que queremos ver. O desporto mais do que
nunca tornou-se num negócio que movimenta milhões, veja-se os recentes
contratos milionários estabelecidos entre os maiores clubes de futebol
portugueses e a operadora NOS. Voltando ao leque de opções, além da internet,
hoje em dia, temos vários canais por cabo, entre os quais, um dos mais
conhecidos a Eurosport, que transmite somente desporto.
 
Continuam comigo? Perfeito, estamos quase
a chegar ao fim! O que quero expressar é que talvez víssemos transmissões
desportivas pelo facto de não haver mais opções, haver apenas 2 canais e só uma
TV em cada lar e não por sermos todos, grandes fãs de desporto. Poderão ter
sido as circunstâncias daquela altura que fizeram com que dedicássemos tempo em
conjunto ao desporto na sua plenitude. Isto leva-me a duas conclusões: o que
mudou ao longo destes 20 anos não foram tanto as coisas em si, mas sim a forma
como olhamos para elas. Sendo que aqui o impacto da tecnologia, como tenho
vindo a referir, foi para mim o factor mais influente. A segunda conclusão alia
os factores económicos, que tornaram a televisão num grande negócio ao aumento
drástico da escolha dos consumidores. Sendo nós um organismo, com cerca de 86
mil milhões de neurónios, isso leva-me a pensar que por vezes termos menos
estímulos, como acontecia nos anos 90 em que as opções eram menores, nos
permitia estar mais focados naquilo que fazíamos em cada
momento, como por exemplo simplesmente ver desporto, porque era essa a única opção,
mas era boa, porque nos envolvíamos, tanto com o tema em si, como com as
pessoas que comungavam connosco esses momentos.
 
Hoje em dia dispersamos demasiado a nossa
atenção. É possível ver vários jogos ao mesmo tempo e por vezes ver um desporto
na internet e outro na televisão. Ora obviamente, a nossa concentração não
poderá ser a mesma e perdemos muito da beleza, neste caso, do desporto, mas
poderia ser de outra coisa qualquer. Não me recordo de na última década me
juntar com família ou amigos para ver outro desporto que não fosse futebol, o
que ao nível de uma das grandes invenções da nossa civilização me parece
bastante redutor.
 
É verdade, as coisas eram assim nos
anos 90 e não foi há assim tanto tempo!
 
Ricardo Dinis

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