Ideias à solta

Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira

Dezembro 15, 2016
Se não nos conhecêssemos e te cruzasses comigo num
bar e eu te sorrisse, tu sorrias de volta?
O dia fora impossível. Começou com os e-mails
azedos do ex-marido para gerir as férias das miúdas. Ainda agora começaram as
aulas após o fim do ano e já o homem quer definir as férias da Páscoa! Ao fim
de cinco anos a conversa ainda não avançou e detém-se lodosa nas mesquinhices
que o divórcio acentuou. Depois foi na empresa. Juntaram o rebanho todo para
falar da crise, dos mercados, das dificuldades do acesso ao crédito e blá, blá
blá, tudo uma ameaça clara à malta do pedaço. Ou se atinam ou alguns não chegam
às férias do verão.


Basta, hoje basta. São seis da tarde. O frio na rua
tolera-se bem e não chove. O dia foi de sol de inverno luminoso e o banco do
jardim estava ainda morno desse abraço. Kirsten sentou-se sozinha decidida a
fechar o sistema, deixando como que evaporar da cabeça as tretas lá da empresa,
o chato do ex-marido e até as miúdas. Sabe que estão as duas bem com o pai, demasiado
bem no esquema super oleado das suas rotinas e controle onde nada foge ao
programado.


Pura vida, pensou. Respirou fundo, ajeitou o peito
no espartilho do fato de gestora de topo e esticou as pernas entregando-se à
preguiça, satisfeita de estar ali, invisível para o mundo.


Ficou nisto uns dez minutos antes de ser atacada
por um cão de porte ridículo a implorar festas e colo. Vinha na trela de uma
miúda nos seus vinte e poucos, nuns jeans justos que lhe traçavam perfil de
atleta. Naquele nano segundo Kirsten invejou aquelas formas, aquele olhar
inocentemente provocador, imenso onde os homens devem penar por se perder.


Fez duas festas ao cachorro enquanto a miúda se
equilibrava entre o esticar da trela e o teclar do telemóvel sempre a tilintar
com mensagens a entrar. Kirsten trocou olhares apenas com o cachorro, deliciado
com os afagos e as festas. Nisto a trela esticou e o cachorro já nada pode
contra a força da miúda que o puxava para longe de Kirsten e das festas. Um
ápice de sofrimento até nova paragem junto aos correios onde o cachorro
encontrou novas mãos a quem se entregar.


Kirsten recostou-se e aconchegou o casaco
protegendo-se do frio da noite que se foi deitando sobre o parque. Olhou à
volta à procura de alternativa e só viu lojas a fechar. Resolveu seguir a pé em
direção à estação de comboios, apreciando as montras das lojas antecipando os
saldos. Parou numa livraria, atraída pelo título de um livro: Se não nos
conhecêssemos e te cruzasses comigo num bar e eu te sorrisse, tu sorrias de
volta?

Ainda olhou para a porta a confirmar se estava
fechada tal o impulso de absorver aquelas páginas, as palavras que dão sentido
aquele título. Quem o terá dito? Quando e a propósito do quê? Seguiu nos passos
confusos daquele título e já só parou num bar a meio gás. Tinha lugares de
sobra para se sentar e pedir algo para comer. Foi acompanhando a noite com gin
tónico, dois, até entrar a banda que fazia as despensas da noite. O ritmo
irlandês encheu o bar de palmas ao compasso da música, com vivas dos turistas que
foram entrando. Aos poucos foi perdendo espaço de manobra à sua volta e menos
de meia hora depois já partilhava a mesa com um casal australiano em viagem
pelo país. Juntaram-se depois duas raparigas Gregas em Erasmus e um Italiano
atraído pela simpatia das Gregas. O bar estava ao rubro, com uma alegria
generalizada a que kirsten não conseguiu ficar imune. Ao terceiro gin tónico já
metia conversa com a malta da mesa do lado sem perceber nada de Finlandês.
Cantava como se tivesse cantado toda a vida, ela que nem nunca o fizera para as
filhas quando pequenas. Estava perdida nesta animação quando o bater da porta
anunciou a entrada de um vulto, num passo apressado a atravessar a entrada em
direção ao bar. As pernas que levavam o corpo em dança para a frente do balcão,
estavam bem torneadas num vestido curto e justo que roubava todos os olhares. Kirsten
também já não controlava o olhar, que estava pousado nas costas da rapariga
encostada ao bar. O feitiço só se quebrou na ovação à banda pelo grupo de
Espanhóis que invadira o pequeno palco, distribuindo abraços e beijos aos
artistas.


Quando as Gregas seguiram caminho em direção a
outro bar, o Italiano seguiu-lhes o rasto, já abraçado às duas como se de
velhos amigos se tratassem. Ainda vão acordar juntos pensou Kirsten a rir
enquanto via os lugares na mesa a vazar. Foi quase imediato o rodar da cadeira
ao seu lado esquerdo, forçado pela rapariga do bar, que se ajeitou para
continuar a beber a sua Guinness.
Com o copo de gin a meio percurso de volta à boca,
Kirsten sentiu o calor do braço da rapariga encostar no seu, parando nele, de
forma suave e decidida. Kirsten que já estava para lá de alegre a arrastar meia
dúzia de palavras das mais simples, não resistiu à provocação e respondeu
encostando a perna à coxa da rapariga. Quando a mão que segurava a Guinness se
evadiu para a mão de Kirsten que se encontrava pousada sobre a mesa, o olhar de
Kirsten disparou em direção à outra sorrindo-lhe. Naquele instante em que o
tempo congela por séculos, aninhou-se nela o título do livro na montra da
livraria: Se não nos conhecêssemos e te cruzasses comigo num bar e eu te
sorrisse, tu sorrias de volta?
 
Ricardo Caldeira

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