Ideias à solta

Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira

Agosto 30, 2016

Desta
viagem não desço tão depressa

 
A primeira vez que a vi nem me apercebi. Estava dormente com a queda.
O passeio atravessara-se nos meus passos sem tempo para o subir. O embate foi
tosco e caí desamparado. Ela estendeu-me a mão e ajudou-me a levantar o olhar
cabisbaixo com queda tão parva. A coisa foi tão breve que não olhei bem para
ela. Ficou apenas no nariz a brisa de um perfume de verão.
 
Foi na semana seguinte que a vi verdadeiramente. Estava nos correios à
espera do meu número para despachar um amontoado de folhas para testar o interesse
de uma editora. Nervoso com a espera, fui deitando o olhar à volta à procura de
uma novela interessante onde poisar a atenção. Corri pela sala e dei com um
casal idoso mudo entre si. Achei que não valia a pena. Estendi o olhar para o
outro lado da sala e encontrei quatro putos a encher a paciência do pai. Mais à
frente uma senhora com um cão ao colo a verter irritação pelo tempo de espera.
Ao seu lado uma mulher morena, donde já não desprendi o olhar. Estava num tom
de verão provocador, que nos faz sorrir. Bonita, de olhar seguro e terno.
Queria aproximar-me. Houve um momento, de desvario é certo, em que me apeteceu
abraçá-la e sentir-lhe a pele.
 
O acaso colocou-nos lado a lado quando a morena cedeu o lugar a um
jovem a braços com um pé partido e o natural desengonçar das muletas. Ficámos à
distância de meio metro, naquele ambiente de espera coletiva em que os olhares
não se cruzam. Pude admirá-la mais um pouco e perceber nela a brisa com perfume
de verão. Era ela. Só podia. Naquele momento a oportunidade era breve e resolvi
não desperdiçar um átomo. Olá, disse-lhe. Nós já nos cruzámos. Sim? questionou
prontamente. No outro dia, respondi, ajudou-me a levantar quando caí no passeio.
Ela sorriu. Pois foi, disse, procurando esconder o sorriso.
E aquele sorriso foi o início da nossa conversa, que nos levou dali a
um café em fim de tarde já no meio de setembro. Rimos imenso e percebemos que
erámos bons nisso. Dessa descontração à atração das mãos, aos primeiros beijos
e aos corpos entrelaçados nos lençóis de início de outono foi um tiro. De
partida, tipo sinal sonoro na estação de sete rios. A vida é uma camioneta.
Nela nos sentamos por acaso na expetativa da companhia de viagem. 

A nossa camioneta vai ganhar certamente amolgadelas e riscos, das curvas mal
medidas que nos atiram à berma, mas é nossa. Foi nela que fizemos, estradas
inimagináveis, que superámos ladeiras e nos deleitámos com vales encantados, na
companhia que o destino nos atiçou.
A minha camioneta, ganhou estatuto, tenho nela passageira de estilo,
uma morena que encanta e que segue na minha estrada. Desta viagem não desço tão
depressa.
 
Ricardo Caldeira

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