Ideias à solta

Crónicas da Brilha

Outubro 25, 2015
 
As aves de rapina
Que desilusão, meu irmão, quando te alimentas de escândalos em vez de alçares aos céus as asas com que nasceste. Quando o pão de cada dia basta para te embrutecer o espírito e te espojas na desgraça alheia.
 
A morte não tem graça, o desespero, um grito de ajuda, não é alvo de chacota.
 
Não há bem mais sagrado ou misterioso do que a vida, que nasce de uma conjuntura que escapa ao nosso controlo e se mantém por caminhos enigmáticos. Um ser que vive é todo um microcosmos de emoções complexas e inadiáveis, insondáveis até para os seus criadores.
 
Essa centelha que nos transcende de barro em catedral, de poeira passageira em perene memória e faz poesia dos passos no caminho.
 
O que nos distingue, uns e outros, é esse estender de asas para o alto, essa vontade de transcender a mesquinhez do quotidiano sem profundidade, Ser, em cada bater do coração, um fio de sentido nisto tudo e fazer com que valha a pena.
 
Tem – e digo-o com alegria – ainda tem 23 anos. No fim desta noite, a família vai abrir-lhe os braços e chorar de alegria e tristeza por o ter regressado da guerra mas também por não ter percebido esse grito, esse espantoso grito de solidão e desespero que nos merece todo o respeito.
 
Vai haver um amanhã para ti, uma nova oportunidade de rires, de amares, de ir à luta, caíres e ergueres-te as vezes que forem precisas e, no fim, tudo ter valido a pena.
 
Somos frágeis, imensamente frágeis, vidro cristalino tecido pelos deuses.
 
É assim tão difícil olhar o outro lado? Perceber que dar a mão não é o mesmo que ironizar como hienas passivas?
 
A vida passa-vos, oh mentes pequenas, mas a semente que o vento semeia em vós é nenhuma. Não falam a língua do tempo, não são capazes de um gesto de compaixão desinteressada.
 
Para mim basta-me esta certeza: para ti, meu irmão, há uma amanhã. E esse amanhã traz em si a semente de toda a esperança.
 
Ana Brilha

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