Ideias à solta

Alentej’Amando – O mapa afetivo das pequenas viagens, by Maria Brinquete

Abril 8, 2015
                                                   

A FONTE DAS BICAS[1]

AVISO:
caríssimo
leitor, esta crónica tem muitas notas de rodapé[2] e
pode causar vertigens alentejanas[3].
Preocupados com a saúde ocular do leitor, sugerimos que leia, primeiro, em modo de sesta, sem descer às notas de
rodapé, evitando qualquer dispersão que o possa fazer sair da rota; depois, não
digam que não foram avisados.
Gostaríamos, também, que a primeira viagem pelo mapa afetivo alentejano
fosse acompanhada pelo som da Ronda dos Quatro Caminhos[4] e
da Orquestra Sinfónica de Córdoba:
https://www.youtube.com/watch?v=EAAGwDpIa6Q – precisamente o que estamos a ouvir[5] enquanto escrevemos. Aqui
fica uma Gota de Água
[6]. Boa viagem!
I. A
paisagem da escrita a janel’ar na 1ª crónica

Alentej’Amando
começa
na Fonte das Bicas, Jardim Municipal,
coreto, em Borba, mesmo a fazer pendant
com o tema musical que estamos ouvindo[7]. Eis o centro gravitacional do Alentej’amando: uma homenagem a todas
as fontes! A Fonte das Bicas “é já ali
e se adivinha como o lugar fiel onde
nos refrescamos após cada viagem. Assim, tudo é já ali…ou seja,  já aqui – portanto, AQUI MESMO, convosco,
os que quiserem ler a nossa forma de amar
o Alentejo
.[8]
Cá vamos nós: daqui para o mundo, em rede e esperamos enredar-vos – é que há
gente teimosa e que gosta de engambelar[9] o
pessoal: ir mais além dos fios ténues
que enredam o ser alentejano no
contexto de ser português. Nós
gostamos de engambelar!
Pretextuando a questão: para
reiniciar esta viagem mensal, ao mui nobre cuidado do convite do Armazéns
de Ideias Ilimitada
, pretendemos ir ao sabor do motor de busca alentejano: o Deus da Sesta. Neste ponto da
introdução ainda não acordámos da sesta, pelo que pedimos ao leitor muita calma mas c’alma.
A primeira viagem nunca é fácil – mas é
o tal desafio: … e que desejamos seja de
fio a pavio
. Sublinhemos desde já que devagar
se vai ao longe
, e com este lema pretendemos ir tecendo convosco, leitores
& amigos, o que vai aqui dentro, no interior de uma alentejana, digo, no
interior alentejano. Gostaríamos que fizessem connosco a ponte entre a procura do fio da memória[10]
a ponto-casa alentejano e as viagens por
mares nunca dantes navegados
– tentando ir além dos espartilhos[11] a
que nos foram acostumando.
É verdade, andámos googliando[12]!
O que uma alentejana não faz por uma sesta?!
Veio-nos à memória uma frase batida como a que canta Sérgio Godinho: e o que é que foi que ela disse? E  fomos mesmo à caça do Deus da Sesta. Por que
não havemos de ter na mitologia o Deus alentejano da Sesta? E há: Yacy
Yateré
. Quando não há pela Europa…
pedimos emprestado a outros trópicos! Neste caso, fomos beber as lendas de Yacy
Yateré[13]

para assentar arraiais na nossa sesta alentejana da escrita c’alma.
As conversas são
como as cerejas: atrás
de uma vêm mil Já devíamos estar a entrar no tema principal desta
crónica e damos por nós a florear[14]
a fazer uma pequena sestança, a dar
voltas e mais voltas, alentejanando
coisas e loisas
… . Em frente que atrás vem gente!
Adiante: há,
de facto, um Deus da Sesta que abraçaríamos já, se pudéssemos.
Hoje, onde quer que esteja, um Deus da
Sesta zela por nós, a bem do sossego e da paz da escrita: E quem disse que…[15]
Aqui nos
confessamos: queremos amainar as notas de rodapé.


II. Janel’ando
pelo Alentejo ao som do cante Gota de
Água
Quantas vezes, em viagem, não ficamos
abismados com o esplendor da “tal nuvem”, da “tal árvore”… do tal “chaparro”?!
Desta forma se vive por aqui, quando o instante é o espelho do nosso mais
profundo ser alentejano e o poial vai
a eito ao âmago de nós… . E se Deus existe, ele chama-nos a travar e a parar.
Isso, a fazer a sestança da nossa
alma. Prego a fundo! Saímos do carro e ficamos a olhar infindamente a planície.
Por segundos, somos levados a pairar com a paisagem. É mais forte do que nós,
até parece um motor de busca: sai de
dentro para fora. Sai da paisagem de fora para o nosso mapa interior.
Saímos à procura de nada e regressamos
com uma mão cheia de tudo e com as pupilas espraiadas de calma. A íris, a
mensageira do dizer alentejano,
torna-se uma alentegema. E nos antípodas
da tão doce e genial anedota alentejana[16],
deixamo-nos enlevar pela escrita de Miguel Torga – também ele amante do
Alentejo, apesar de transmontano[17].

Insónia Alentejana
Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coraçãoBater e ao mesmo tempo descansar…
  
Isso mesmo: a paisagem: física, humana,
e temperamental – esta última de cariz afetivo e meteorológico, ao mesmo tempo.
No fundo, o que nos deslumbra e o que vos deixará sem palavras
quando nos visitarem – se tal ainda não
aconteceu… sabemos que estará para breve.
Fomos atrás da tal nuvem, da tal
azinheira. Tínhamos sede: entre pedras e
pedrinhas alguma gota
havia de haver. E o
que foi que ela disse?
Respondemos nós:Que vos tenha sabido a
pouco
.
O Alentejo está em grande, está na moda,
e é grande o regozijo para quem o ama tanto, mas não é só por isso que estamos
aqui a tecer esta crónica.
Ao longo das crónicas, vamos abrir a
janela do nosso/vosso Alentejo de par em par, através da paisagem, da mãesagem[18]
e da poemagem[19].
Um abraço  a l  e   
n   t  e    j    
a       n          o
Maria Brinquete

[1] Monumento Nacional, a Fonte das
Bicas ou o Chafariz de Borba é uma construção barroca, em mármore branco da
região, mandada edificar por ordem do Município da vila em 1781 foi dedicada
aos reis D. Maria I e D. Pedro III, aquando da sua visita à então vila.
Município de Borba: http://www.cm-borba.pt/pt;
Roteiro de Borba: http://www.cm-borba.pt/pt/site-visitar/roteiros/Documents/Folheto%20Borba.pdf
[2] Isso mesmo: descer o olhar e
sair do texto-mãe pode ser uma cansêra, por isso pedimos desde já
desculpas se acaso sentirem algum enjoo;
se soar um certo tom
pedagógico-didático nas notas de rodapé, isso é mesmo feitio
& defeito nosso.

Não se demore por aqui, e solte amarras. Não deixe abalar o pé da letra – em cima! Toca a voltar ao
texto!
[3]
Vertigem alentejana é um desconforto
psicofisiológico que apresenta os seguintes sintomas: sonolência e um
pestanejar lento quando expostos a um vaivém abrupto; a íris torna-se
monocromática e desenha-se o som do vento, provocando, inclusive, o abandono da
leitura. Leitores curiosos desceram logo à nota de rodapé, não é?!
[5] O nobre Cante Alentejano ficará
para um mapa afetivo em modo exclusivo:
Viagem à Terra do Cante – aqui fica a
promessa.
[6] Se a Gota de Água se acabar depressa, sugerimos que siga a música de
fundo: https://www.youtube.com/watch?v=Rztt5EcsyJQ&list=RDRztt5EcsyJQ#t=41
[7] Estamos, não estamos? Estamos
com a Ronda dos Quatro Caminhos, como
vos pedimos?!
[8]
Se quiserem vir ao Alentejo sem o guia modernaço Tomtom, comecem a vossa narrativa viajeira in media res: “a meio caminho” – neste caso, a meio caminho entre
Borba e Lisboa – Montemor-o-Novo. Dar-vos-emos outras coordenadas, brevemente!
[9]
Engambelo é uma palavra que faz parte
do vasto léxico alentejanês da mãe
Pépinha (D.Pepa), mais concretamente, Euprépria da Encarnação. No idioleto da
minha tão nobre progenitora, oiço-a dizer: vocês andam-me a ingambiar… Da pesquisa que fizémos, com
o mesmo sentido, só encontrámos engambelar/engambelo
no sentido de sedução, engodo.
[10]
Título da obra sobre a tradição oral O
Fio da Memória
Do Conto Popular ao
Conto para Crianças
, de Maria
Emília Traça
, Porto Editora, 1998.
[11]
Rotulando, fazem-nos andar saltitando de –ismo
em –ismo: urbanismo, cosmopolitismo; ruralidade/urbanidade;
campo/cidade. Não nos queremos colar aos pares campo/cidade, rural/urbano –
pelo menos de forma de forma maniqueísta.
[12]
Idioleto/neologismo da nossa lavra e total responsabilidade; o m. q. pesquisando
no Google; calma, não confundir com goleando.
[13] A mitologia guarani refere-se às crenças do povo
tupi-guarani da zona do centro-sul da América do Sul, especialmente os povos
nativos do Paraguai e parte da Argentina, Brasil e Bolívia. Jaci Jaterê é considerado o senhor da
sesta, o tradicional descanso ao meio do dia das culturas latino-americanas. De
acordo com uma das versões do mito,
ele deixa a floresta e percorre as vilas procurando por crianças que não
descansam durante a sesta. Embora seja naturalmente invisível, ele aparece às
crianças e as que veem o seu cajado caem em transe ou ficam catalépticas.
Algumas versões dizem que essas crianças são levadas para um local secreto da
floresta, onde brincam até ao fim da sesta. Quando recebem um beijo mágico
voltam às suas camas mas sem memória da experiência.
[14]
Até nos faz lembrar aquela voz que às
vezes paira “muita parra e pouca uva”.
[15] …os
monges budistas não viveram na planície alentejana?! Leia-se também sonhar com/aspirar a, etc.
[16]
Anedotas… !Havemos de lá chegar numa das crónicas. Merecem, tal como o Cante
Alentejano, um lugar especial.
[17]
Sugerimos a leitura de Portugal de
Miguel Torga – uma viagem pelas nossas regiões. Merece destaque: 





[18]
Palavra de nossa lavra e de nossa inteira responsabilidade.
[19]
Idem.

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