Ideias à solta

Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira

Outubro 16, 2014
Os pingos de chuva fugiram, mas as gotas de chuva não!
Eram quatro vezes trinta e três mil, quinhentos e quarenta e três pingos de chuva, todos juntinhos nos braços de uma nuvem como se estivessem num autocarro cheio a caminho do trabalho.
– Chega-te para lá! – gritou um pingo de chuva para a gota azul ao seu lado.
– Não posso. – respondeu a gota azul quase sem se mexer.

– Isto está muito cheio de gotas e pingos de chuva. Não vês que não há espaço para todos? – disse a gota.

– Pois é, isto assim não pode continuar. – disse lá ao fundo outro pingo.

– Alguém tem de falar com esta nuvem para não entrar mais nenhum pingo e nenhuma gota de chuva.
Depois de tirarem à sorte, lá foi o pingo mais sorridente de todos os pingos, falar com a nuvem.
– Senhora nuvem! – gritou o pingo.– Senhora nuvem! – voltou ele a gritar, sem obter resposta. 
Cinco ou seis gritos depois, já quase a desistir da conversa com a nuvem, o pingo ouviu uma voz muito fininha.
– Que queres tu? – perguntou a nuvem.
– Passa-se alguma coisa? – indagou o pingo, preocupado com a voz da nuvem.

– Está tudo bem obrigado. O que queres tu? – voltou ela a perguntar.

– Está mesmo tudo bem? – insistiu o pingo.

– Oh pingo chato! – exclamou a nuvem num tom muito baixinho, quase sem se ouvir. Não vês que tenho de falar baixinho para conseguir segurar todos os pingos e todas as gotas de chuva nos meus braços. Se falar muito alto agito-me e depois caem pingos e gotas fora do sítio. Olha lá para baixo. – continuou a nuvem. Aquela areia toda é um deserto e nos desertos não se podem largar pingos ou gotas de chuva.

– Não? – perguntou o pingo.

– Claro que não. – disse baixinho a nuvem. Os desertos estão cheios de areia quente, ventos quentes e pedras ainda mais quentes. Se lá caírem pingos ou gotas de chuva, queimam-se mal toquem no chão quente do deserto.

-Ah! – exclamou o pingo de chuva, pouco convencido com as palavras da nuvem.

– Mas afinal o que é que tu queres? – voltou a perguntar a nuvem já meio inquieta com o pingo.

– Pois…eu vinha cá falar da falta de espaço – respingou o pingo.

– Falta de espaço?

– Sim. – continuou o pingo. Já não existe muito espaço livre dentro da senhora nuvem e nós já não nos conseguimos sequer espreguiçar pela manhã. E olhe que espreguiçar pela manhã é muito importante para o nosso crescimento. – concluiu o pingo.

-Não cabem mais pingos e gotas de chuva? Então quantos pingos e quantas gotas de chuva é que já cá estão? – perguntou a nuvem.

– Na nossa última contagem, disse o pingo, éramos quatro vezes trinta e três mil, quinhentos e quarenta e três pingos de chuva.

– E quantas gotas? – questionou a nuvem.

– Sabe senhora nuvem, as gotas de chuva não são como nós. Elas juntam-se todas, umas com as outras e depois é muito difícil contá-las. Não se consegue perceber onde começa e acaba cada gota. Mas olhando assim para elas, devem ser metade dos pingos, o que já dá uma multidão de pingos e gotas de chuva. Falta espaço! – gritou o pingo, concluindo o seu pedido à nuvem.

– Calma meu amigo. – disse-lhe a nuvem muito baixinho.
– Já fiz muitas viagens com o dobro dos pingos e o triplo das gotas de chuva que tu contaste até agora.
– Ai sim – suspirou o pingo muito desanimado.

– Sim – continuou a nuvem – mais seis dias e deixamos a areia quente do deserto, subimos uma montanha, descemos um vale de flores amarelas e chegamos a um campo imenso cheio de arroz bebé. Aí, largo as pingas e as gotas de chuva parta dar de beber ao arroz, que depois vai crescer grande e forte.

– Eu percebo, senhora nuvem – argumentou o pingo – mas nós não aguentamos esta viagem por mais seis dias.

– Conseguem – sorriu a nuvem – vão ver que conseguem.
E dito isto a nuvem encheu o peito para sugar do ar fresco mais gotas e pingos de chuva que caíram uns sobre os outros. Logo se instalou uma grande confusão com pingos e gotas de chuva à cotovelada entre si por um pedacinho de nuvem onde pudessem descansar os pés a pingar água. No meio da confusão o pingo sorridente soltou um grito:

– Oiçam todos! Tenho novidades. A nuvem disse que são mais seis dias de viagem e depois …
Agitados pingos e gotas nem deixaram o pingo sorridente acabar a frase:

– Seis dias! – gritaram.

– Quem é que aguenta este aperto por mais seis dias? – perguntou uma gota lá do fundo.

– Temos é de fugir – gritou uma gota pequenina.

– Fugir? – perguntaram logo as gotas em coro.

– Sim – respondeu a gota pequenina, toda contente.

– Boa ideia – disseram as outras gotas enquanto preparavam o plano para a fuga: uma distrai a nuvem e as outras escapam-se pelas mãos desta.

– Espera aí – gritou um grupo de pingos de chuva mais aventureiro. Se alguém vai fugir são os pingos, porque somos mais e mais fortes.

E assim foi. Por serem mais e mais fortes que a gotas de chuva, os pingos pegaram nos planos das gotas e como previsto distraíram a nuvem com uma barrigada de cócegas que a deixou a rir à gargalhada. Tal foi a confusão, que a nuvem nem viu que sobre a areia quente do deserte caíram quatro vezes trinta e três mil quinhentos e quarenta e três pingos de chuva felizes e contentes por deixarem o espaço apertado dos braços da nuvem.

Mas os gritos e os risos de alegria acabaram mal os pingos de chuva tocaram com os pés de água na areia quente do deserto e aos poucos queimaram os dedos, os pés, as mãos e em menos de nada, a poça de água que se formara na areia logo desapareceu debaixo do sol quente e forte do deserto.

A nuvem, essa, continuou o seu caminho, apanhando mais gotas de chuva nos seis dias do deserto à montanha, passando pelo vale das flores amarelas, até chegar já cansada ao campo de arroz bebé. Aí repousando da longa viagem e do colo que deu a tantas gotas de chuva, a nuvem abriu os braços, largando docemente sobre o arroz bebé todas as gotas que conseguiu apanhar pelo caminho desde a fuga dos pingos de chuva.

Quando chegaram ao chão, junto do arroz bebé, as gotas de chuva deram de beber, lavaram e aconchegaram o arroz bebé que assim cresceu grande e forte. Depois, todas juntas, as gotas de chuva seguiram por um rio calmo passando um campo imenso de rãs e malmequeres. Vão descansadas da vida à conversa umas com as outras e à espera de uma outra nuvem que as apanhe novamente.

Ricardo Caldeira

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